6 de out de 2013

Sobre teu nome

Peguei o seu nome emprestado e acentuei cada cadência daquele som que você costumava atender para passar a chamar o que não se atrasa todas as noites em solicitar cada hora do meu sossego. 
Penso que um dia cheguei a agradecer o que quer que fosse, agradeci às circunstâncias, agradeci à arquitetura dos eventos que me levaram exatamente àquele lugar e ao inferno lento da tua espera. Foi naquele preciso instante em que pensei durante três segundos ao ouvir de longe: largo tudo e venho com você, trago meus livros repetidos aos seus, trago a minha pressa de viver todos os dias ao teu lado, a compensação da minha demora, escova de dente, o gosto de café que partilhamos entre o poema de alguém que fui ontem, o cachorro que já tem nome de idoso, o movimento das folhas da samambaia na frente da casa que abriga o fim da tua insônia e parafraseio o tempo todo que te olho um refrão infinito de caetano: eu quero que você venha comigo todo dia, todo dia, todo dia e depois de amanhã ser a realização de clichê certo de sessão da tarde. Seremos amigas, rirei com riso terno das tuas piadas de improviso, arriscarei nomes de filhos, curarei o seu porre de sábado e trançarei meus dedos nos teus cabelos finos no silêncio da tua ressaca dizendo com olhos calmos que bom que está aqui que bom que corri tanto ontem à noite engolindo a cada passo meio copo de orgulho com dipirona para dizer que poderia morrer hoje mesmo e que está bom assim levantar com todo o cuidado para o preparar o teu café sem te acordar pois sei que terá um dia cheio demais e realmente acreditar com todas as forças do universo que desde a grande explosão que antecede a minha vida sem o tom da tua voz que tudo só se fez para que eu te ouvisse cantar uma música em espanhol num violão desafinado ao que eu repito a cada fôlego dos teus versos que se case todos os dias comigo e me leve a cada dia para um lugar diferente pois há tanto que precisamos descobrir tantas versões da mesma música que ouço sempre pela primeira vez esquecendo que no fim dela a conversa não era bem essa, há muito o que mudar e nesse momento as coisas te chamam pro lado de lá, há outros poemas no lado b, há outros nomes que precisam ser citados, há coisas a serem reconsideradas, a distância do teu endereço, a falta de espaço da tua casa que não é a mesma que a minha, há aquela viagem que preciso fazer e as passagens esgotadas, há tuas mensagens que vou precisar ignorar, as ligações não atendidas pela incoveniência desse momento em que não faço ideia do que faz e é bom que não esteja no meio dos outros toques em que desvio os olhos sem graça, o caminho que percorro repetindo o nome que se sublimou da sua imagem e o que nem é mais você no que vejo em projeções das sombras de uma árvore estática que transpassa a eternidade do que sempre poderia ser e o que é:
Um nome que peguei emprestado para chamar de meu o que insiste em não ser nosso.