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17 de nov. de 2016

Orquídea a Braço

Hoje eu digo que seguro o cigarro de lado, ela me segura pela:

_Esquerda.
_Sim, é bonita.

Disse que fuma por aí, já andei investigando os jardins de Lygia. Prossegui nesse tom que a gente tem quando quer falar que gosta e porque "Está apaixonado e falando tudo".

_ Não, Mônica, não estou apaixonada.

Aparece-me pela direita dizendo que a música brega tem um quê de confessar. Acendo assim mais um cigarro de palha que disse não gostar, de palha, cortada no último domingo.

_ Lógico que quer alguma carta_ Mônica sempre completa.

_ Mas prefiro ser romântica, estragar o computador do meu pai, arrancar os sete Fautos, ou Faunos, ou já não sei mais em que língua falar.

_ Funk, eu sei que ela ouve funk e gosta de se divertir.

_ Talvez...

A prova que não se está apaixonado, a prova que não quer comer nem a beira do Master Chef. Prossigo em silêncio pensando em seu cachorro, o mesmo cigarro parado de lado, a mesma rima, a orelha direita coça.

_ Prefiro política.

_ Ah! Sei que tem marte em...

_ ... Gêmeos.

Meu retorno em sagitário, mas hoje é quinta ainda e a balada nem sei em quantos 10 anos vai parar.

25 de jan. de 2014

pela metade

tentava assistir um filme argentino
acho que vi algo parecido em ingles um dia
um taxi driver portenho

nao li o livro inteiro que ela me emprestou
acho que nao pretendo devolver
o que ela acreditou 
que eu podia
concluir

amanha talvez eu nao faça nenhum mantra
nao defenda a classe oprimida
ja resolveram a falta linha
da riqueza paulistana
em algumas
gotas sublínguais

Já tentei remover todos os anúncios
maliciosos da minha janela
e só tenho paciencia para um beijo
e algum silencio

e eu querendo devolver com uma citaçao
em portugues
do filósofo
que nao me dei ao trabalho de ler
eu disse

eu nao leio
mas seguro bem as cigarrilhas
e sinto o gosto no fundo da colher
e faço preguiçosas massagens
cardíacas
dessa pessoa tao normal

nunca tratei de fotografar esta cidade
acredito que nao vivo num filme
acredito que nao há prostitutas nessa rua

vizinhos discretos e a cada ano
mudam de carro
(tres anos é o tempo máximo)
o seguro da tua conversa insólita
ninguém me garante

ainda vejo as árvores
nao reviso rimas
nao reconecto tuas linhas
que vieram dos teus dedos comidos

a divina secura na boca
vai chamar a última ligaçao
gravada insistentemente

sei das coisas do seu quarto
e tudo faz mais sentido
quando limpa os cinzeiros
e joga no fundo
essas olheiras de me ver

as pessoas morrem ou vao pra europa
as teias devem ser retiradas com uma vassoura
limpa
porque as paredes precisam
nao oferecerem nenhum ponto de fuga
que é pra eu olhar
e nao ver nada

te ligo mais uma vez
pego dois onibus
e volto

sem nunca devolver o livro
longe de fazer sentido

removo a conclusao
te ligo
no quarto toque
desisto 


6 de mai. de 2012

Dispositivos Móveis

twito o compartilhamento do at ciclano
via facebook pela página de mário fulano
que foi aquele que não tomou as pérolas
de outra página;o vinho, o café, as promoções da tim
quatro assuntos acima da banda C
de ninguém que me viu passar apressada
pela Sé, Pinheiros e 40 lances de escada rolante

enquanto @jukaiko pelo quem quer citado
se junta as fotos da cleopatra nua.
Espero o elevador chegar e aperto
qualquer botão que me leve pra casa
dispositivos imóveis pelo rádio
e eu parada dando impulsos pela marginal
a quem imaginem o nado dos fones siliconados
insuflados de mais cinco estações
que passei; 
um amor terrível que deixemos no morumbi; à ponta do ponto dos coletivos, mais 57 caracteres para dizer da falta do que se diz, hoje à tarde eu não acordei tão cedo, tão feito, tão completo.Respondi em compartilhamento para Zeca, que curte qualquer coisa que faça sentido.

Santo Amaro não é tão longe de qualquer lugar, em uma hora passasse uma cidade inteira por tudo que se passa nos trilhos. Mas uma cidade reconstruída, mas uma vez é alguém que não veio junto, mas me deixei, para a próxima foto enviada instantaneamente via foursquare, no momento que já me deslocava para a outra plataforma. O trem passou interferindo no Nextel banda B de Marcos Zwlailosjhe, mais um contrato adiado, enquanto eu e todos só querem chegar a qualquer lugar. Simplificando qualquer fibra que não estala na movimentação do modernismo que não conheço.

Quando a mim, dizem através de 63 câmeras, que andei a passeio pela cidade

29 de abr. de 2012

Reminding P,

todos os meios que se chega a alguém viam-me por tubos
não sei se como posso ser até o fim de
tudo ao que não alcança

do outro lado quem me espreita e circunda a imagem perdida por hoje
eu não posso e nem quero me prender a vista que não me olha,

molha pela chuva da capital da América Latina se devo ficar ou se devo ir?

respira-me o anonimato de andar e fazer de qualquer bobagem o meu lema que teima em dizer adeus no fim do metrô consolação.

Quem, me diga quem não se despediu de alguma expectativa diminuta, quem nunca sentiu o hálito ruim do metro e saber que ainda se tem alguma casa e que ali se fica.

Casa é o que não se prende aos sapatos, casa é o que se bate com força sem vontade de voltar mas se volta, com três reais nos bolsos e a sensação que deveria ter ficado. Mas enfrentar as ruas não é pra qualquer um, e qualquer um está à espreita.

Quantas orações à Marcelo preciso dar para fazer isso tudo mais uma vez, pois já estive aqui e mais uma vez estou no cartaz, naquela folha descacada dos outdoors e ácido alumínio por debaixo do retângulo de oportunidades imperdíveis;

Imperdível é Lucas, imperdível é o seu toque e sua barba por dentre seu sorriso e o não acreditar quando digo que estou voltando, dessa vez para mim.

É só mais um tempo
é só mais esse tempo e nos vemos
é só qualquer lugar e nos tocamos
é só mais eu e você e vemos
é só mais isso

três tempos de prosa, 
e voltamos pra casa

dessa vez cada um para sua que também é minha.

19 de abr. de 2012

Método distilante de limpeza interna:

ao amanhecer conferir se os dentes estão escovados para que o bafo de café não interfira nos comentários dos sonhos: "Sonhei com a minha pátria." Tinha nossa presidenta escrita assim mesmo a A, tinha a cruzadinha de mamãe e a estupidez que ainda consome o que fora feito para produzir entreterimento aos erros dos quase veteranos ao silêncio. Venham agora e imitam a receita de bolo di Millôr, ô mino, sua carta e faça o favor de Rojas para fora, suaviza o que era pra ser her-médico, chamo por codinome fábio que pertence ao velhos brancos que sabemos que receita se faz com cpf sujo, mas mamãe me dizia que visitara você sem revisão de futuro. Venda ao grupo e teremos churrasco às novelas das nove do carinha com cara de: Olhe, com o quê fui romper com o sonho? Mãe? E quem mais seria o primeiro a rir das flatulências e intimidades de família? Rompo com o grito de cangaceira e daqueles que me acompanham. Já andaram perguntando sobre as cores do chaveiro. Papai ainda está dormindo com números e Malba anda contando detalhes do meu irmão: três nós se contam três ovelhas e o pi da circunferência do sonho que se formou na minha nuca, ou nunca me viram despida; Confesso hoje que sou mulher, fêmea insofismável, com quantos orifícios Caê puder contar, quantas notícias puderem me render daqueles malditos que formaram o meu caráter. Envogue qualquer gênio e depois lavo a louça para ganhar a minha cara que me custa nem tanto assim.

2 de fev. de 2012

Fim das Coisas

e assim, ela entrou no meu quarto, com duas caixas de leite Itambé e não me disse nada, só que eu os aceitassem. Quis dizer que tinha sentido, absolutamente todo o sentido o que ela não me dizia e que pedira

em silêncio

para que eu não dissesse; Poderia hoje citar Maiakóvski traduzido por Campos,

mas hoje é bruto. é assim como um dia de Ulisses que tentei jogar flores no infinito e esperar que ela voltasse.

a porta está aqui ainda.

26 de jul. de 2011

Nota sobre Maria.

Maria morreu durante essa madrugada. Ao longo dos seus sessenta e nove anos e cinco meses de vida, Maria teve três filhos: Pedro, Mateus e Arnaldo, e dois homens: José e Reinaldo. O primeiro, como todos sabem, foi aquele que fugiu e o segundo, como poucos percebiam, foi aquele que ficou.
Maria estudou pouco e nunca trabalhou fora. Mãe e esposa dedicada, passava o dia inteiro limpando a casa que nunca estava limpa. Esperava que os filhos fossem honestos e corretos, e eram. Todos trabalhavam e ajudavam em casa com algumas contas. Arrastava as pantufas, que ganhara de Arnaldo no penúltimo natal, pelos quatro cômodos da casa e, ao dormir, arrumava-as perto da cama. Não precisava de sapatos. Chegava a passar meses sem sair na rua. Não era dada as fofocas com vizinhas. Tinha três filhos pra criar e os criou. Quando precisava de alguma mistura pro almoço, avisava Reinaldo que sempre passava na venda e arrumava algumas batatas, cenouras e carne moída.
Nessa manhã a casa estava quieta. Só foram se dar conta que Maria morrera na hora do almoço, quando estavam todos com fome.

22 de set. de 2009

a quarta aula.

A profª Yara engordou. Isso foi o que eu pensei hoje pela manhã ao cruzar o meu caminho com ela.
Dona Yara foi apresentada como professora de matemática da 6º série do ensino fundamental da escola municipal Dep. Cyro de Albuquerque, exato ano letivo em que eu coincidentemente havia decidido renunciar às práticas aritméticas. Não me julguem tão preguiçosa antes de tomarem conhecimento de como esta disciplina havia infernizado a minha breve vida escolar até então.
Quantas foram aquelas professoras que disparavam fórmulas, teoremas, equações com a velocidade de um raio que com a mesma rapidez ricocheteavam o meu cérebro fantasioso e retornavam para seus conhecimentos tediosos e automáticos permanecendo para sempre intocados e isolados de qualquer possibilidade de penetrarem na memória sonolenta daqueles alunos de hálito dormido os quais estabeleciam como principal meta, durante aqueles quarenta e cinco minutos, reogarnizar o cronograma pedagógico a fim de alinharem as aulas vagas diárias pra depois do intervalo resultando na tão almejada dispensa pós-canjica.
E então veio a profª Yara com olhos esbugalhados, cabelos negros e grossos repuxados com um arquinho dentado de plástico, camisetas com retoques de cândida e gola esgarçada e aquela voz estridente de uma soprano de cordas reumáticas que, para decepção geral da galera, residia ao lado da escola e nunca sequer tencionou dar-nos o alívio libertário após as merendas.
Nem a sua voz, nem a sua paciência digna de inveja de personagens bíblicos como Jó por exemplo, me dissuadiam da decisão: eu não iria nem mesmo me esforçar em acompanhar aqueles símbolos absurdamente gregos tais como alphas (peixinhos de barbatanas abertas), tetas (de uma representação tão infame diante seu potencial subversivo) e pi's (a tal da casinha ao estilo colonial).
Para me livrar do tédio, comprava antes da primeira aula, um exemplar do jornal Notícias Populares. Então, assim que a Dona Yara adentrava no recinto, se deparava com manchetes do tipo: MA-MA-MATARAM O GA-GA-GUINHO, as quais me introduziram no concretismo literário.
Depois de um semestre a profª Yara finalmente conseguiu cair na graça geral, até mesmo o Renato-Coruja resolveu deixar seus sonhos matinais pra resolver teoremas de pitágoras no quadro. Mas eu continuava interessadíssima nas inventigações contra a quadrilha dos palhaços que, a custa de um pirulito, dopava as crianças e vendia seus rins no exterior por uma quantia superior ao custo cinco super nintendo com todos os cartuchos juntos. No milagroso silêncio durante as explicações, ouvia-se o farfalhar das folhas que eram manejadas cuidadosamente para que não vertessem sangue de suas páginas carníficas. Dona Yara, pelo menos uma vez por semana, se sentava ao meu lado e perguntava qual era o balanço semanal de rins infantis e depois me implorava para que desse atenção a isso depois do horário de suas aulas. A princípio achei a solicitação razoável, mas a decisão já tinha sido tomada: a matemática estaria para sempre banida de minhas ciências. Eu estava irredutível até um dia que D. Yara pareceu perder enfim seu poço farto de paciência.
Ao 26º rim pueril exportado, o jornal foi abruptamente tomado das minhas mãos. Enquanto D. Yara se dirigia ao lixo, não se ouviu o mínimo ruído fora aquelas folhas sendo raivosamente picotadas. Ela não disse nada. Eu, catatônica, não ousei nem inflar os pulmões em objeção. Após enterrar aquele jornal no lixo, a aula prosseguiu normalmente. Alguns que ousaram me olhar foram ineditamente repreendidos a gritos histéricos: "Rodrigo! Olha pra lousa! Dê atenção ao que merece atenção!"
E nesta manhã, olhando a Profª Yara naquele instante em que nos cruzamos, quis dizer: graças a senhora o meu cérebro permanece operante juntamente com meu sistema excretor, mas ela estava tão disforme da minha memória que tudo que pude fazer foi notar que de certo seu rim deveria estar comprometido resultando em alguma retenção de líquidos.