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8 de mar. de 2017

8 do Mundo

Acho que aprendi a cantar com Mazzy Star, jogando uma sinuca sozinha num quarto como esse com um computador quebrado, pois simplesmente não observei que o computador no chão está disposto a ser pisado e, assim, disposto a não ter mais acentos.

Acho que aprendi a cantar no colo do meu pai, nos domingos em que, pela manhã, ouvia Ravel com seu cachimbo e jornais dobrados em que, ele, compartilhava cada vírgula de alguma novidade com a minha mãe.
Lembro-me que meu irmão jogava super nintendo, lembro-me que ao cair de um domingo daqueles, Ravel cadenciava prum samba, pra uma Clara Nunes, meu pai tamborilando um samba na minha barriga e minha mãe dizendo o tempo todo o quanto éramos, eu e meu irmão, amados.
Lembro-me do meu meu pai me perguntando incansavelmente "Cadê a [sic] pincezinha do papai?" e eu, sempre embaraçada, apontar para minha mãe somente com o intuito gratuito de receber as cócegas dele dizendo que "não, o pincezinha do papai e você". Ríamos todos.

Num desses domingos, deitada no peito da minha mãe, recebendo aquele carinho e a respiração alegre da cerveja, a ouvir dizer: "Filha, pra uma mãe todo erro e uma tentativa de acerto."

Nunca me esqueci dessa frase: "Uma tentativa de acerto".

Ninguém me ensinou a acertar ou a errar, ninguém me ensinou a olhar sólida no espelho e dizer: "isso é ser mulher, isso é ser humano, isso é." 

_  Uma tentativa de acerto.

Hoje, tendo a plena ciência do meu corpo, de onde se localizam meus ovários, trompas e útero e, muito maior que isso, onde se localiza meu gênero digo: somos a tentativa do erro e do acerto.

Ser mulher hoje é respirar estando limpa da sensação de ter sido tocada pela forma que sou e que me concentro, me mirando na mulher que tive e que retenho em cada lembrança tão rígida como o amor que ela dispendida ora com prazer, ora com dor - minha mãe.

Ser mulher não é queimar sutiã, ser mulher é queimá-lo todos os dias no calor do corpo, no atrito da pele, no suor que todos, homens e mulheres, tem a derramar.

Ninguém ensina ninguém a ser homem ou mulher, a relação do sexo não se faz, a relação do encontro se perde. Prende-se a respiração e se livra de si todos os dias para se encontrar no próximo corpo, o próprio.

Ser mulher é não somente a tentativa, mas também o interno instinto de se desdobrar em mil e se quebrar em muitos tantos outros.

Ser mulher, ser a tentativa, o erro, o acerto, o igual, a curva, o turvo gene de se encontrar o tempo todo.

22 de fev. de 2017

Vadia pra Justiça

Hoje no Brasil
o tal do Imbecil
Advogado de
renome


PUTA QUE PARIU!

Foi nomeado
ministro
do

Samba
Carnaval
Futebol

Dizem que é de renome
eu sou sapatão
mas que
se
foda
aquela

Careca
pelé
foi vencido
pela
Marta
selação

Canarinho
1970
Gol
de

Prata
São Paulo
Babilônia
dos 
Infernos

Só se fala de 
trânsito
e ninguém
trepa

Na árvore
da 
vovó

Niguém trai
Ninguém peida
Ninguém caga
no
pau

(pela ordem Sr. Presidente)

7 de fev. de 2017

Estado de Exceção

Ao Erick Figueiredo

Exceto branco
marinha
general
se pode
querer
marinha, litoral, água

Exceto as cores que tudo
representam
na terra do pau-brasil
se pode
querer
o esmeril da batalha
do prisma
viril da pátria
da mortalha
plural do futebol
ao carnaval

Exceto a Bandeira
rodopiante
vendaval
se pode querer
o desdentado
boçal que ocupou
o veneno da cobra
coral
que
neste país
já balbucia
o que é rima óbvia
ou é raiz
ou o que traz
o murro
nas coxas
da mulata
o murro
surdo
nossa Santa síndrome
de vira-lata

Salamaleico
estado laico
frita
amém
e espanca
o nato troglodita
se grita
se mexe
se amarra no poste
introduz
o pai-nosso
e deixa quarar
a morte com impostos

28 de jan. de 2017

Nota de Jubilamento Estapafúrdia.

Hoje vi uma amiga muito querida se formar, pensei que poderia ter a "very fine nature" que Oscar menciona, mas não, não tenho a very fine nature quando vejo que uma universidade não consegue se organizar para entender: eu perdi a minha família e sou obrigada a me entender sempre.
Fui jubilidade, embora tenha provas que isso nunca aconteceu.
Não cordeais, dão assistência, mas não sabem o que é um aluno perder um irmão e uma mãe em menos de cinco anos.
Escrevo pelo simples fato de fazer Letras e não aguentar essa máquina desumana da educação. Muitos me falariam que apenas ocupo espaço, muitos me falam muitas coisas, mas não sabem que um diploma é lágrima e orgulho de pai e mão.

Hoje só conto com um pai e preciso enfrentar dossiês, preciso ver meus melhores amigos se formando e, ainda, receber o e-mail dizendo que eu "poderia ir pros EUA no Inglês sem fronteiras" sendo, que, um dia antes recebi uma carta confusa de jubilamento mesmo tendo o meu recurso deferido pela própria instituição.

Que tipo de sanidade mental querem que eu tenha? Que tipo de língua ou poema querem que eu escreva?

Estou morta naqueles registros e ainda me convidam pros EUA sem eu poder pagar a passagem, entendem? AONDE está o DCE, panelinha escrota, aonde está o meu direito legitimamente conquistado?

Estou em São Paulo e choro muito, mas, quem, eu digo quem, oferece o lenço sem usar ABNT?

21 de jan. de 2017

Ensaio sobre o Bar do Cabral, Av. Antônio Carlos

Esses dias tive a sorte de encontrar um livro sobre a tradução da literatura por módicos 15 reais. O Sesc tem ajudado pessoas, o Sesc tem emprestado muita coisa a muitas pessoas.
Sempre é um parar para pensar naquilo que chamamos de "Literatura". 
Abro espaço para às amadas etimologias ou o que seja:





Substantivo feminino, resumo.


Daí, do substantivo ao objeto: Livro; Daí, ao verbo: publicar; Daí ao ato: Editar.


Editar:


Dessa vez não me dou ao trabalho de utilizar as mídias, os livros, os conceitos:

MERCADO EDITORIAL

Penso no meu país, penso no bairro de classe média alta, penso no sebo e no rapaz, que ali trabalha, me dizendo:

_ Moça, eu só trabalho aqui. Qualquer coisa procure pelo: "Estante Virtual" 

A experiência me remeteu a um episódio:

Um amigo de longa data me deu, acho que em 2007, toda Antologia poética do Manuel Bandeira, edição capa dura e escreveu uma linda dedicatória na qual dizia algo como: 

"Se um dia brigármos e esse livro for parar num sebo, digo à esse leitor que aqui uma amizade se fez"

As palavras não eram exatamente essas, mas algo tão belo como.

_ A vida e seus percalços, suas perdas e danos, sua delicada arte de nos esbofetear com luvas de pelica na cara.

Essa amizade se desfez, mas a profecia da dedicatória não se cumprirá por três motivos:

1- O gesto foi lindo e quero guardá-lo independente de qualquer coisa;
2- Ele foi a pessoa mais responsável no mundo pelo meu amor à Literatura;
3- Um ser humano normal não se desfaz de um Manoel Bandeira completo por um desvio à toa de caminhos.


Lembro-me, antes de qualquer coisa, de sempre me lembrar de mim através dos versos de Manuel Bandeira, fato este que esta grande pessoa me chamou a atenção.


Certo dia eu, num daqueles ataques de querer dizer uma resposta a alguém através de versos, liguei para esse amigo num momento, quase sempre, impróprio , perguntando pelo título e ouvir:


_ Nega, joga no Google... [barulho de copos e confusão ao fundo]:



_ Acrescento que o horário era impróprio e que a ligação foi afetuosa, como de costume na época.

Agora não sei o que mais sou capaz de "jogar no Google", agora não sei o que mais o Estante Virtual pode deixar de ajudar, agora não sei mais o que dizer àquele balconista do sebo na Av. Adhemar de Barros no centro de São José dos Campos.

Acendo mais um cigarro, nunca com pose de hermética, nunca com pose de intelectualóide, sempre admitindo que não li o xerox do Walter Benjamin, que preferi tomar uma catuaba na porta do Cabral:




e que, ali, se fala de amor sem ABNT.


14 de jan. de 2017

London Line --------




                                                     monument
leicester square

                             westminister begins with the 
bang
ring
trafalgar
cabin

circle


line
to
complete

Brixton
Camden

TOWN
Angel
of
              Victoria

Law

Margareth
Maldives
Belushi's

Pub

Brazil
in 

Stockwell

Charles

Across

Jubilee Line

Came Scotland
yard
paid
SIX
Pounds

                                                                   Docklands
                                                               Light
                                                               Tatcher
                                                              Way

Say: I apologize

William is fine
No translation
to
live
or
die.





8 de jan. de 2015

I'm not in Paris

o que convém
é o meu rastro
é o gosto
do lápis
e o que ser
arranhado
garganta
de baixo
pra nada

Decora que fica
mais fácil
entender
o cheiro do
chá

Decora e entenda
que não falar
é som que sai
mais fácil

Decora tuas honras
medalhas e camisas
cuidadosamente
dobradas.


19 de abr. de 2012

Método distilante de limpeza interna:

ao amanhecer conferir se os dentes estão escovados para que o bafo de café não interfira nos comentários dos sonhos: "Sonhei com a minha pátria." Tinha nossa presidenta escrita assim mesmo a A, tinha a cruzadinha de mamãe e a estupidez que ainda consome o que fora feito para produzir entreterimento aos erros dos quase veteranos ao silêncio. Venham agora e imitam a receita de bolo di Millôr, ô mino, sua carta e faça o favor de Rojas para fora, suaviza o que era pra ser her-médico, chamo por codinome fábio que pertence ao velhos brancos que sabemos que receita se faz com cpf sujo, mas mamãe me dizia que visitara você sem revisão de futuro. Venda ao grupo e teremos churrasco às novelas das nove do carinha com cara de: Olhe, com o quê fui romper com o sonho? Mãe? E quem mais seria o primeiro a rir das flatulências e intimidades de família? Rompo com o grito de cangaceira e daqueles que me acompanham. Já andaram perguntando sobre as cores do chaveiro. Papai ainda está dormindo com números e Malba anda contando detalhes do meu irmão: três nós se contam três ovelhas e o pi da circunferência do sonho que se formou na minha nuca, ou nunca me viram despida; Confesso hoje que sou mulher, fêmea insofismável, com quantos orifícios Caê puder contar, quantas notícias puderem me render daqueles malditos que formaram o meu caráter. Envogue qualquer gênio e depois lavo a louça para ganhar a minha cara que me custa nem tanto assim.

17 de abr. de 2012

31 de jan. de 2010

Opus Dei

Dei a César o que é de César
Mas César queria mais
Dei a César tudo que é de César
Mas César queria tudo e mais
Dei a César tudo que é e não é de César
Mas César queria tudo que é e não é e mais
Dei a César tudo que não queria dar e que era e não de César
Mas César queria Deus

Dei a César Adeus

E depois
não
escutei
Mais

O que é que aquele queria.

28 de jul. de 2008

farinha do mesmo saco para exportação.

Hoje saquei os últimos R$ 10,00 da minha conta. Dessa vez não senti raiva, apenas olhei praquela nota e guardei na carteira, quieta, sem pensar em absolutamente nada. Aliás, pensava sim no fato de ter sacado os últimos R$ 10,00 e pela primeira vez não sentir vontade de sair gritando pelo shopping onde o caixa eletrônico incumbido de raspar as paredes já tão gastas da meu cheque especial estava alocado. Não me senti nem um pouco ofendida que pais de família com seus sapatos mocassim de uso exclusivo para finais de semana, representassem a fortaleza ao ofertarem para os filhos quantas casquinhas do Mc Donald's pudessem se inchar. Costumava pensar no ciclo vicioso disso: sorvete aos finais de semana, escola na semana, cursinho depois do expediente de ajudante administrativo, cerveja no barzinho da faculdade, gel sapa-tênis camisas salmão i-pod i-tune i-phone, help desk de sistemas de informação da renomada companhia francesa, promoções para gerente de gestão de sistemas, piadas com o peixe que perdeu na vila, churrascos corporativos, jantares pagos para a mocinha do rh, apartamentos na vila mariana com o financiamento do itaú, troca de carro a cada três anos antes que se desvalorizem no mercado, chá de bebê, pré-escola e, fechando, casquinhas do Mc Donald's aos finais de semana. Sorvete é bom, com esses R$ 10,00 poderia tomar umas 6 ou 7 casquinhas do Mc Donald's, mas tenho outros planos por hora pra esse montante. Ao subir a rua do shopping pensei que ainda precisava de mais R$ 2,30 pra pegar um ônibus amanhã. Lembrei do mendigo que me veio com uma história de latinha filhos deus. Por sorte eu tinha umas moedas que entreguei sem pensar, apenas respondendo, quando entendi naquela voz tão passiva "deus te abençoe", um "amém", que um dia aprendi nas aulas nunca concluídas de catequese significar "a todos nós". Mas não acredito que naquele pequeno montante fosse somar R$ 2,30, no máximo R$ 1,45 - moeda de fundo de carteira tem mania de nunca completar um valor aceitável para a maioria dos preços estipulados das coisas que precisamos. Gostam de quantias facilmente divisíveis ou então laçam a piadinha do 99 centavos pra dezena não se completar, nos dando assim a ilusão que pagamos, por exemplo, R$ 200 por um microondas que custa R$ 300, quer dizer, R$ 299,99 - Nos apegamos ao começo das cifras, ou melhor, ao seu formato. O mendigo conseguiu beber umas 2 pingas, com sorte, arrumou algum dono de bar que arredondou para 3, ou talvez ele tenha juntado os prováveis R$ 1,45 com outras esmolas e levou leite para seus filhos, pra mim, honestamente, tanto faz. Dificilmente voltarei a ver aquele homem que se arruma em qualquer canto que evito (sempre o medo de perder os últimos R$ 10,00). No mais, provavelmente usaria os tais R$ 1,45 pra comprar um halls ou qualquer coisa não mais valiosa do que cachaça pro bêbado ou leite pros famintos: é tudo questão do mínimo do bem-estar, insustentável, claro, para aquele com R$ 1,45 ou aquela com os últimos R$ 10,00. Idiotice pensar que aqueles R$ 1,45 me pertenciam de alguma forma, devo ter trabalhado alguns minutos para obtê-lo, sorte minha que consegui ir para Londres aos 18 anos por conta de uma tia generosa e um pai dedicado: aprendi a falar um pouco de inglês e com ele ganho talvez mais talvez menos que R$ 1,45 por um punhado de tempo pra vender passagem aérea pra gringo que não quer ver um mendigo com discursos automáticos de latinha filhos deus. Gringo vem fazer negócio em empresas francesas, alemãs, americanas, brasileiras. Gringo vem fazer turismo exótico, já que não tem um país mais rico que o seu (e se tem ele já foi) pra tirar fotografia e colocar no porta-retrato: Na casa da minha mãe, tem uma fotografia minha sorrindo, gorda por me alimentar somente de Mc Donald's (onde trabalhei por 10 meses no centro financeiro londrino) e frangos islâmicos, radiante, com o imponente big beng (quase escrevo big bang!) atrás de mim o amarelo parlamento inglês. Talvez o mendigo nunca ande de avião, talvez já tenha andado e perdido tudo na cachaça. O mundo anda doente, sabe, e eu um pouco cansada. Se bem que estou no vigor dos meus 25 anos, com várias idéias pipocando na minha cabeça e os últimos R$ 10,00. O que faço?! Oras, deixe-me tratar de relatar tudo isso pra que alguém entre tantos muitos na mesma situação que a minha me leia e tenha generosidade de me ofertar um comentário: "Puxa, eu te entendo!" ou "Você escreve bem" ou "Como você traduziu perfeitamente o que vivo" ou afins. Aí eu fico toda vaidosa e penso que um dia essas palavras poderiam me render algo além de R$ 1,45. De repente isso aqui se trata de alguma forma de um discurso latinhas filhos deus, só que um pouco mais prolixo, um pouco mais retórico que é pra não ir a lugar nenhum, fazer meus malabarismos desajeitados no farol vermelho de vossas pressas e vossos orkuts e vossos i-tunes e vossos downloads e vossa busca voraz por alcançar algo como companhia e repertório para mantê-las por perto e interessadas pelos seus gostos, cultura, opiniões e palavras: essas palavras com que falo agora "gostem de mim" ou "me dêem um pouco de atenção". Isso não me dói admitir, acho mesmo que até me rende um ar cool toda essa lucidez. Aliás, até certa idade nunca entendi o que os intelectuais diziam sobre: "a consciência dói". Há aqueles que repetem essa máxima sem nunca entender, como fiz durante boa parte da minha vida, aqueles que entendem o que é tal de dor-do-saber e a cultivam para que a auto-flagelação-intelectual lhes rendam alguma sensação de vida e, por fim, aqueles que entendem o que seria essa dor da consciência mas a renegam como podem. Penso que talvez toda essa dor implique simplesmente em saber que somos constituídos de inúmeros defeitos, que não há uma verdade absoluta que nos conforte ao agirmos segundo os preceitos de uma consciência única refletindo atos decorados e fáceis de sermos bons e fazermos o bem, e que, muitos daqueles que admiramos e que nos apoiamos durante um bom tempo estão tão perdidos como a gente. Ah, e de repente a sua mãe se torna uma fofoqueira intriguenta, Ah e de repente o seu pai se torna um ser patético ao espichar os dedinhos do pé dentro de sapatos mocassim, Ah e de repente o teu irmão se torna o queridinho da família ao ser mais um desses idiotas com os seus mocassins esperando pacientes na prateleira de uma loja enquanto ainda não enjoa do nike sox 30 molas. Mas a questão em renegar essa dor, que para mim seria mais um incômodo eventual, é simplesmente entender que talvez 99% das intrigas da sua mãe é unicamente para proteger seus filhos ofertando-lhes aquela verdade única que irá amortecer o peso do mundo em sua prole, envolvendo-os numa redoma cuidadosa e ensinando-lhes a construir esse modelo único de vida que, segundo ela, deu a possibilidade de uma outra, que seu pai calça horrendos, porém confortáveis, sapatos mocassim por estar cansado de tanto lutar por você e suas aparentes necessidades de forma a merecer algum conforto na sola dos seus pés que incansavelmente correram pra que tudo estivesse disponível pra você, e que seu irmão simplesmente aceitou toda essa proteção. Me chamem de moralista, mas tenho horror a ingratidão e mais ainda a gratidões impostas! Não cobrei a benção do mendigo e mesmo se ele tivesse me poupado do reconhecimento por caridades duvidosas, inevitavelmente me agradeceria ao utilizar os R$ 1,45 da melhor maneira que encontrasse na ocasião. Certamente gozarei dos últimos R$ 10,00 do cheque especial da melhor maneira que tenho e, podem estar certos disso, não proferirei nenhum agradecimento, além da cordialidade obrigatória que preciso reproduzir para manter o meu emprego, àquele gringo x que comprou uma passagem se deleitando ao ouvir minhas curvas fonéticas no meu "sorriso na voz" mas que não quer ver a mim nem ao mendigo. E por fim, o que irei fazer com esses R$ 10,00?! Resposta: turismo.

9 de jul. de 2008

Sobre o prefeito que ajudou enfrentou os poderosos.

Opa, procurando uma foto do excelentíssimo ex-prefeito Celso Pitta com cara de sono ao ser preso, a fim de compartilhar com os senhores o raro deleite de comemorar alguma justiça, eis que descubro que Pitta escreveu um livro! Resolvi então mudar o rumo da prosa.
O livro está sendo vendido pela Submarino que, na descrição do produto, anuncia:

"O ex-prefeito Celso Pitta passa a limpo a sua atuação frente à prefeitura de São Paulo entre 1997 e 2000 e mostra os bastidores do poder. Rebate as críticas sobre irregularidades em sua administração e se defende dos dois pedidos de impeachment durante sua administração."


Tá, e daí?! Ok, se o cinismo pretensioso de seu livro, publicado em 2002, não rendeu sonoras gargalhadas vamos aos dados técnicos da publicação:


Editora:
Martin Claret

ISBN: 8572325433
Ano: 2002
Edição:
1

Número de páginas:
160

Acabamento: Brochura
Formato:
Médio


Ahá! Talvez Pitta tenha escolhido a editora a dedo, ou seria a única em arriscar sua imagem ao publicar um livro de um autor tão duvidoso?! Ah! Que nada! Pitta e Martin Claret se merecem! Deixe-me esclarecer: Martin Claret é aquela editora chifrim dos livros, em sua grande maioria de domínio público, com capa de romance semi-pronográfico de banca, baratinho para que os estudantes possam ter pouca despesa com o material escolar e poder gastar o resto cerveja (falo isso com toda propriedade do mundo), disponíveis em bancas e displays giratórios de livrarias. Lembrou? Então, é que coincidentemente a editora teve de prestar contas sobre a séria acusação de plágio em suas traduções. O lance é que um tal de Pietro Nassetti simplesmente traduziu obras de Marx, Nietzsche, Kafka, Platão, Shakespeare, Dostoiéviski, Sun-Tsu etc. Num tempo realmente impressionante! Notem que além do cara ser um absoluto poliglota, ele praticamente psicografou a tradução num surto desfreado pra deixar qualquer Chico Xavier comendo terra. Ah! E ainda conseguiu realizar a proeza de traduzir escritores como, por exemplo, Machado de Assis para a língua pela qual lhes dirijo esse post: Sim! O poliglota ninja traduziu Machado de Assis para o português numa edição integral! Vamos, uma salva de palmas para Pitro Nassetti, Martin Claret, Celso Pitta, Naji Nahas, Daniel Dantas e pra Biblioteca Nacional que entrega numa boa um número de ISBN (International Standard Book Number) para traduções de um idioma para o mesmo:

[clap, clap, clap, clap]

Ah! Já ia me esquecendo, o preço do livro pela Submarino é R$ 17,90, mas pelo sebo do Messias dá pra descolar por R$ 8,00 pelo worst seller do ex-secretário de finanças do (ó abram alas que ele vem aí) Paulo Maluf. E só pra não terminar sem aproveitar a foto da eterna cara de sono ao ser preso:

Desculpem a qualidade da imagem, mas depois de Martin Claret e Celso Pitta, até que dá pra dar um desconto. E me respondam, será que a "Política E Preconceito" já foi traduzido por Pietro Nassetti?

30 de jun. de 2008

Como é que faz pra lavar a roupa?

ou: um post nada mínimo.




Eis o mais novo cartão postal da grande capital do terceiro mundo: A ponte Octavio Frias de Oliveira.
[clap, clap, clap]
Assim se configura o grande X do governo Kassab / Serra (PSDB/DEM).
Vejam que além de ostentação, a ponte oferece uma série de vantagens: Ligar o engarrafamento da Água Espraiada com o da Marginal Pinheiros, concretizar literalmente a política do que pode ser tocado mas pouco usufruído (política paulistana essa tendo como principal pioneiro o glorioso ex-prefeito Paulo Maluf), e, claro, servir de um grande adorno para os Estúdios Globo de jornalismo, coincidentemente situado a frente do novíssimo sightseeing paulistano, e que agora abre as janelas celebrando com o slogan: "SPTV, jornalismo transparente até no estúdio". Mas como nem tudo que reluz é ouro, os pupilos de Roberto Marinho tiveram de adiar a estréia do novo cenário - era luz demais nas notícias, sabe. Para ajustar a iluminação, tiveram de abrir mão das câmeras de alta definição que, em conjunto com o sol, interferiam na feição dos jornalistas, deixando-as deveras expostas: Sol do meio-dia não é fácil! Ainda bem que notícia ainda não cheira, não é mesmo? Pois o Pinheiros, rio onde a ponte atravessa, ainda fede, e muito! Mas concordemos que aplicar o mesmo montante final da ponte (R$ 260,000,000,00 até onde temos notícias) para despoluir as águas putrefatas do Tietê paulistano e seus afluentes seria por demais demodê, né?!



"Como é que faz pra lavar a roupa?
Vai na fonte, vai na fonte
Como é que faz pra raiar o dia?
No horizonte, no horizonte

Este lugar é uma maravilha

Mas como é que faz pra sair da ilha?

Pela ponte, pela ponte"


Bem que os moradores das casas de papelão da favela Jardim Edite, localizada próxima a Berrini (m² mais caro da cidade), poderiam ter cantado a música de Lenine quando finalmente o mais novo projeto megalomaníaco de São Paulo foi concluído, mas preferiram comemorar o resultado alcançado na Justiça que garantiu a área às famílias assentadas próxima à ponte. É que a prefeitura de Kassab pretendia dar mais uma clariada na área desocupando e demolindo os barracos na rota do moderno projeto urbanístico que a ponte empreende. O porém foi que o dinheiro arrecadado para acomodar os moradores com supostos "cheques-despejos" entre R$5 mil e R$ 8 mil e vaguinhas no CDHU, vulgo "cingapura" - prédio fachada para esconder favela criado pelo saudoso (olha ele aí de novo, gente!) ex-prefeito Paulo Maluf, no bairro de Campo Limpo, a 18Km da Glob... ops... da ponte, foi usado também para dar um help na construção do grande X empresarial.
Mas o problema de se lavar roupa em água podre é que a roupa nunca fica limpa, o branco nunca fica branco, o transparente mancha tanto quanto jornalismo tendencioso. Isso sem contar o futunzinho exalado nos tecidos tão mal lavados como, os expectadores atentos hão de superar a limitação olfativa tecnológica, aquele globinho fedido.