27 de mar de 2008

Semáforo


"Diálogo de surdos, não: amistoso no frio.
Atravanco na contramão. Suspiros no
contrafluxo. Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo."
AnaC

O semáforo demora a abrir. Ele me disse que seria mais fácil se a vida sempre tivesse esse tom onírico. Seria eu concordei sem responder. Mas sabe que a primeira luz do dia a bater no quarto enquanto ainda dorme já traz consigo o mormaço da lucidez e uma hora é preciso sair de casa se agarrando ao batente da porta. Foi na primeira página de um livro o qual abri aleatoriamente que dizia que a cidade canta. Canta mesmo. Num emaranhado de motores, concretos e suspiros. Já não isolo o que ouço ou o que vejo por aí. É tudo um bloco de ondas sensoriais que decorei do caminho de casa ao trabalho. Não penso no tempo além desses segundos em que aguardo. Conto planos frágeis sem entusiasmo ou pretensão de acontecer. Ele escuta. Mais cinco minutos entre as duas mãos. Atravessa. Corre. Chega logo a algum lugar. Que não encontra. Ele ficou do outro lado.

11 de mar de 2008

Síntese.

Devemos ser feitos de coisa mole que seca. Ou daquilo gelatinoso que vai adquirindo uma casca. Se endurece por dentro e por fora e a certa altura algo começa a se tornar imoldável. É que passamos do ponto e as formas ainda não se definiram e talvez seja aí que nos damos conta de que será assim mesmo. Tenta-se por dentro expandir-se o que é por fora, mas o espaço é cada vez menos flexível e as superfícies se enrijecessem com a atmosfera do tempo. Aí que se diminui. Se condensa a ponto de pedras e o que não tinha toque agora tem. É que aquele vapor de tudo o que pensamos pela manhã, antes mesmo de se definir os movéis ou datas, se solidifica nos resquícios dos travesseiros e se mantém durante todo o dia de uma casa abandonada. Haverá pregos que não passarão pela sola do pé, eu sei, e a expressão não mudará a um possível reconhecimento nos transportes coletivos. O Outro não entra ou tampouco passa. Aceita-se as durezas e o encontro que não se encaixa. E no fim fecha-se. Encerra-se.

6 de mar de 2008

10:20 am

Apertei o porteiro eletrônico; O portão se abriu:

_ Qual convênio?
_ Bradesco Saúde.
_ Qual idade?
_ 24 anos.
_ Qual médico?
_ Dr. Felipe.
_ Qual profissão?
_ ...
_ Qual profissão?
_ É complicado responder com esses empregos de hoje em dia.
_ ....
_ Coloca aí: Estudante.

Sabe os machados de Raskólnikov?! Então...