28 de mai de 2009

manhã sem sol para ele.



A Fabiano Calixto

Eu disse agora pra você que foi um milagre. Foi assim, ó, vou te contar direitinho. Era 5:00 da manhã e recebo teu recado de SOS e te encontro naquele posto de gasolina. Não digo nada e te abraço e você confessa que era tudo, tudo o que você precisava. Fomos pra minha casa e começamos a conversar, fumar, beber café. O rádio ligado com algumas notícias matinais e de repente começa a tocar "While My Guitar Gentle Weeps" do Harrison. Eu nunca havia ouvido aquela música tocar no rádio e do nada tudo fez sentido. Nunca mais ouvi essa música tocar novamente, eu te disse. Deve ser porque nunca mais te vi passando por aí nas redondezas. Eu podia fazer disso literatura, mas só o fato, o simples fato já é o máximo que poderia nos acontecer naquela manhã. Não transformo nada. Eu apenas digo: foi um milagre enorme tudo aquilo. Você deve ter ficado mais uns 10 minutos e depois foi pra casa a salvo. A salvo de qualquer coisa que poderia nos matar naquela manhã sem sol. Pelo menos naquela manhã. Depois tratamos de nos perder pra além de qualquer data ou qualquer cor em preto e branco.

24 de mai de 2009

conversa da ponta da mesa.

Começo a dizer porque estou sentindo vontade de me ouvir nessas expressões que você faz a cada palavra que vou dizendo sem pensar. E tudo ouvido assim tão de perto parece bobagem, então o silêncio veio a confirmar que essas bobagens fazem sentido. É quando comento do que vem e do que vai enquanto você junta para o centro da mesa os grãos de sal que erraram o prato, é quando te falo de medo e você procura o isqueiro na bolsa sempre tão cheia de coisas como se nunca mais fosse voltar pra casa, é quando esbravejo maldições ao que existe por alguma corriqueira auto-frustração enquanto você se vira procurando o garçom e eles sempre com essa mania de nos ignorar assim com tanta sede e tanta urgência de nos embebedarmos para o entreterimento semanal, é quando começo a falar de amor e você ri das reminiscências de algo meio caipira no meu sotaque que muda espontaneamente em cada situação como se não fosse de lugar algum e de todos eles, é quando menciono permanência e você me pede lincença para ir ao toilet, sim, você diz toilet como se esse cubículo impestado de aromas ilícitos fizesse juz a tal designação, é quando percebo que estamos todos falando sozinhos enquanto você me escuta e responde: eu também não quero ser só me contando qualquer caso da semana passada e tento limpar o borrão indelével das lentes dos meus óculos, mas o pano da camisa é sintético e só espalha essa nódoa que se evidencia quando te vejo contra a luz. Então digo intermináveis trivialidades te pedindo pra ficar e você consulta o relógio. Ainda é tempo para você reparar na blusa estranha da moça que passou atrás de nós me dizendo que sim. E eu prossigo.

20 de mai de 2009

Quatro diriam,

(mas uma está atrasada e a outra parece que não vem mesmo).


Aquela foto tão bacana que tiramos na augusta de 10 megapixels com retoques do photoshop e direito a bordinha fake polaroid foi pro saco quando inventei de limpar as cartas antigas de amor em formato word 98. Sabe-se lá porque ela tava ali no meio.
Sorry, baby, nosso estandarte da tropicália capricorniana não terá manchas de desgastes. Se bem que não usávamos chapéus engraçados nem colares havaianos e, no mais, o modo sépia também não convencia muito. Volta tudo: às 18:00 nos encontramos, embora sabemos tão bem que para chegar a consolação, provalmente, só depois do rush.
Ela disse que só iria chegar depois das dez. Ainda tem tempo de mais um torpedo enquanto ele aguarda na fila do banheiro. Quando voltar já terá uma garrafa nos esperando com conversas de encontros e outros. O tópico tão aguardado:

_ Ah, então, era basicamente isso, entende?
_ Sei, sei.

Fim.

Mas eu ia dizer alguma coisa. Diz. Eu acho que você já disse. Mas o que era? Era isso de ser o que a gente é. O que que tem? Não sei, acho que é isso mesmo o que você disse. Mas qual parte exatamente? Todas elas. Mas eu não disse tudo também. Então fala. Mas eu também não sei o que seria exatamente tudo. Estamos aqui há 1 hora e meia. Pois é, há tempo. Há tempo? Há. Há tempo pra quê? Há tempo para falarmos tudo. Para falarmos tudo até quando? Ai, até quando der. Mas e depois? Depois a gente vai embora. E se não falarmos tudo? A gente vai embora sem falar mesmo. Aí depois podemos marcar pra outro dia esse lance de falarmos tudo. Combinado! Consolação depois das 18:00? Fechou.
Acho que ela não vem mais. É, acho que não.

(Post originalmente publicado no blog 'Todos Dizem Eu Te Amo" em parceria daqueles que também não foram).

13 de mai de 2009

provas.

Sabe, foi um desespero quando te vi. Jogava isqueiros nos cinzeiros, acendia bitucas no fogão. Esquecia de passar na padaria e comia as raspas da geladeira. Eu te disse que foi uma danação toda. Pressenti um dia, acho que há três anos, durante uma terça-feira em que voltava do serviço, que você seria exatamente assim. Te encontrei há três semanas e foi daí que tive certeza quando um fusca azul passou na avenida, é que tinha pensado assim, quase como simpatia: "se um gol prata for o próximo carro a passar, é porque o amor é confirmado". E se confirmou! Agora tenho certeza. Você é o amor que previ no engarrafamento da Rebouças, é que fiz um pacto assim: "Se eu conseguir prender a respiração da Oscar Freire até a Faria Lima é porque o amor vai acontecer", então quando buscava ar na Henrique Schaumann eu soube que era você. E não poderia estar mais certa.
Agora as chaves estão na mão, aquelas que abrem qualquer porta.