30 de jan de 2017

Nota de Vinho

jazz
de novo
digo
jazz

digo
telefone
digo se toca, fia
digo
amanhã depende
se for
um leve repente
falo a noite inteira

idiota
o
poema
existe
no
mar
o que
cantar
cerveja
ou
iorubá?

A pergunta
o tom
vertical
óbvio
paladar

Leio epopéias
leio
arquiteturas
leio
Sociologia
ideogramas

Rasgo o papel
sento na mesa de
estranho
digo
a cor do cabelo
castanho

Só não digo
o
homem
que
vai
me
derrubar

28 de jan de 2017

Nota de Jubilamento Estapafúrdia.

Hoje vi uma amiga muito querida se formar, pensei que poderia ter a "very fine nature" que Oscar menciona, mas não, não tenho a very fine nature quando vejo que uma universidade não consegue se organizar para entender: eu perdi a minha família e sou obrigada a me entender sempre.
Fui jubilidade, embora tenha provas que isso nunca aconteceu.
Não cordeais, dão assistência, mas não sabem o que é um aluno perder um irmão e uma mãe em menos de cinco anos.
Escrevo pelo simples fato de fazer Letras e não aguentar essa máquina desumana da educação. Muitos me falariam que apenas ocupo espaço, muitos me falam muitas coisas, mas não sabem que um diploma é lágrima e orgulho de pai e mão.

Hoje só conto com um pai e preciso enfrentar dossiês, preciso ver meus melhores amigos se formando e, ainda, receber o e-mail dizendo que eu "poderia ir pros EUA no Inglês sem fronteiras" sendo, que, um dia antes recebi uma carta confusa de jubilamento mesmo tendo o meu recurso deferido pela própria instituição.

Que tipo de sanidade mental querem que eu tenha? Que tipo de língua ou poema querem que eu escreva?

Estou morta naqueles registros e ainda me convidam pros EUA sem eu poder pagar a passagem, entendem? AONDE está o DCE, panelinha escrota, aonde está o meu direito legitimamente conquistado?

Estou em São Paulo e choro muito, mas, quem, eu digo quem, oferece o lenço sem usar ABNT?

27 de jan de 2017

Sal em Caraguá

à Ana Helena Sciamarella

ana
se lê dos
dois
lados
o contrário
palíndromo
que percorre
o
nome
ana
leio
suzanna
leio
Juliana
leio
ao
que
pertence
o elástico
tem um
som
leio

e volto
para
ler
italiana.

Shakespeare in Mano Brown

Ao Mano Brown

se não se fala
a língua entorta
dobra
cala

se não se fala
a língua morta
cobra
fala

se não se fala
o morto cala
toma
mata

se não se falha
o corte da
navalha
fere
enfia
pára.

23 de jan de 2017

into the wild inner inside

o ritual
é de
dentro
o ritual
segue

ossos
olhos
ovários
pés
dentro
do
ballet

o movimento
precede
a dança
e cansa o

equilíbrio
em
colapso
diz
entre
os
espaços

anda por 
dentre
as mãos
agarra
a

outra forma de
ser
e
talvez
o

instinto
de
se
falar
de
si
pro
outro
a
dor
é
continuação

22 de jan de 2017

Pernambuco e mais um

poema
não
enche barriga

poema não
pega a mina
pra passear

poema não convence
a ficar

poema dá beijo
de boa sorte
atende
outro
chamado
no tinder

poema

poema disseca o que dói e registra

poema não é assunto de discussão numa sala de psicologia

poema é terapia ocupacional

poema é outro doido
babando
por
um
sinal

poema diz: vá com deus e seja feliz
poema pega teu remédio de dormir
e vai chorar
no
ombro
do
pai


Jazz de Improviso

Jazz, estranho modo
de esquecer
dormir
olvidar
las transas

Como dizer que agora
como dizer
outra
hora

O fumo faz rota
o boca o forno
os dentes
rangendo na carne
e solta o instinto
sin empezar el negro
desgarro

Prende o cigarro
sorri meio
de lado
se aquieta
queima
a escárnia sede de continuar

seguir adelante
quebrar o fêmur
e
o
anel
de
diamente
carbono
claro
óbvio
certo
vidro

egípcio
el precipicio
el mágico sonido
de su pelo en el viento

OUÇA

21 de jan de 2017

Dani de Leão amiga dos Aquários

Sempre existe uma forma
de circundar espaços
de se fazer fêmea
de cuidar
de olhar vênus
de deixar ir 
sabendo onde
e que vai voltar

há vinhos
in vino veritas
digo
coberta
que há uma
estranha mística
nesse nosso modo
obviamente cínico
de cuidar:

Deixa-se ir
anda por dentre savanas
e volta para se voltar

Ouça "Nina Simone"
Sinta o que é
uma nota
adocicada
em se sentir bem

Faz-se ouvir 
A Case of You
e entenda-se:

Nunca é demais
mais um gole
mais um toque
mais uma água
de bagagem.


Ouça

Ensaio sobre o Bar do Cabral, Av. Antônio Carlos

Esses dias tive a sorte de encontrar um livro sobre a tradução da literatura por módicos 15 reais. O Sesc tem ajudado pessoas, o Sesc tem emprestado muita coisa a muitas pessoas.
Sempre é um parar para pensar naquilo que chamamos de "Literatura". 
Abro espaço para às amadas etimologias ou o que seja:





Substantivo feminino, resumo.


Daí, do substantivo ao objeto: Livro; Daí, ao verbo: publicar; Daí ao ato: Editar.


Editar:


Dessa vez não me dou ao trabalho de utilizar as mídias, os livros, os conceitos:

MERCADO EDITORIAL

Penso no meu país, penso no bairro de classe média alta, penso no sebo e no rapaz, que ali trabalha, me dizendo:

_ Moça, eu só trabalho aqui. Qualquer coisa procure pelo: "Estante Virtual" 

A experiência me remeteu a um episódio:

Um amigo de longa data me deu, acho que em 2007, toda Antologia poética do Manuel Bandeira, edição capa dura e escreveu uma linda dedicatória na qual dizia algo como: 

"Se um dia brigármos e esse livro for parar num sebo, digo à esse leitor que aqui uma amizade se fez"

As palavras não eram exatamente essas, mas algo tão belo como.

_ A vida e seus percalços, suas perdas e danos, sua delicada arte de nos esbofetear com luvas de pelica na cara.

Essa amizade se desfez, mas a profecia da dedicatória não se cumprirá por três motivos:

1- O gesto foi lindo e quero guardá-lo independente de qualquer coisa;
2- Ele foi a pessoa mais responsável no mundo pelo meu amor à Literatura;
3- Um ser humano normal não se desfaz de um Manoel Bandeira completo por um desvio à toa de caminhos.


Lembro-me, antes de qualquer coisa, de sempre me lembrar de mim através dos versos de Manuel Bandeira, fato este que esta grande pessoa me chamou a atenção.


Certo dia eu, num daqueles ataques de querer dizer uma resposta a alguém através de versos, liguei para esse amigo num momento, quase sempre, impróprio , perguntando pelo título e ouvir:


_ Nega, joga no Google... [barulho de copos e confusão ao fundo]:



_ Acrescento que o horário era impróprio e que a ligação foi afetuosa, como de costume na época.

Agora não sei o que mais sou capaz de "jogar no Google", agora não sei o que mais o Estante Virtual pode deixar de ajudar, agora não sei mais o que dizer àquele balconista do sebo na Av. Adhemar de Barros no centro de São José dos Campos.

Acendo mais um cigarro, nunca com pose de hermética, nunca com pose de intelectualóide, sempre admitindo que não li o xerox do Walter Benjamin, que preferi tomar uma catuaba na porta do Cabral:




e que, ali, se fala de amor sem ABNT.


20 de jan de 2017

Quebra da Noite

veementemente
arrisco espaços
e adequações
armários
de vidro
tua saliva
em vibração

faço versos
nego a afirmação
te
jogo
submerso
as tranças

catalogo
reações
enquadro
o teu bom
dia
interrogo o pisar
da tua dança

capoeira de pesos
peço
alicerço
as nuanças
do teu
paladar

me despeço
dizendo que não
te começo
dizendo
sim



Ouça

19 de jan de 2017

Mãos Rápidas

espreito
jogador
o que queira
teorias
sinastrias
a canastra no
meio da
minha
alegria


o naipe

o escape
full house
a desculpa
royal
straight
flush


a estreita

vista
espreita
a hora
o fumo
de tabaco
se arma
four of a 
kind


joker

que varre a sala antes
do valete sentar
copas
que encerra
o truco
antes 
do susto


18 de jan de 2017

Good breathing

The question is never: why
The answer is never: when
The manner is never: how

The place in my head is her
is the graceful silence
is the simile
in the 
deep
of my mind

Understanding is never the question
The time is a matter of crying
hard
in the backstage
of her
distant
hiss

I miss the touch
I miss 
so much
what is a sober
goodbye

Alone in the deeper
light
her
sound
is
a
beat
her
breath
inner my mouth

breakfast at Laurie Anderson

in the first hour of my dream
i sit with Laurie Anderson
it's Illinois
it's a table

we sit in silence
we don't talk
she'd rather smiling

strange
sounds
dreams
once
I haven't dreamed
on her screen

the angel says:
meet or bread?
I look at her
dog
Reed
I conflict
the meet

i can't speak
about
my
mother:
no breathe
her
eyes
melting
my
weeping

Laurie offers
fish
a napkin
Laurie
says
nothing

my dog lives.



17 de jan de 2017

Outro Jogo

Proponho
o outro jogo
proponho
a outra
barba
o
outro
molho
o
outro 
nojo
o
outro
gosto

Hoje eu te
desgosto
hoje
eu
te
aposto

ponto
contra
ponto

Hoje meu 
afeto
está
com
o gosto
torto

corto
costuro
lavo
apuro
devagar

Levanto da mesa
peço
licensa

hoje a coisa
é sobre
meu 
cabelo
entupindo
a
forma
de
gelo

Só hoje
eu
juro
que
é
por

fim.




16 de jan de 2017

thirty three plus one

um dia vão me perguntar quem o quê foi o que chamamos de

primeiro amor

Sempre vou pensar e sempre vou saber

Mas isso a gente não precisa saber, mas isso a gente transcorre no decorrer de uma música, quando nos damos conta de que temos 33 anos e que houve e há uma pessoa que sempre te conheceu, que te estendeu a mão, que te disse: você é bonita como é.

Não há nada numa supernova que diga o contrário, não há lágrimas que diga o contrário: hoje estou feliz por tudo que um dia conseguimos ser, por tudo que conseguimos dizer, pelas músicas, pelas cartas, pelo Shakespeare.

Remédios na prateleira e um sorriso no fim da garganta - we're old souls, so old, so tired, so hopeful and one day we could say: I see you as the same.

Usar uma outra língua pra decodificar tudo o que seríamos no futuro: três países, quatro pais e um olhar numa estação de metrô: seja feliz sempre que sempre serei feliz pelo o que você me fez ser.

Assim se perdoa, assim um espírito embriagado do passado se renova.

Um dia você tem treze anos, no outro trinta e três e matemática nenhuma, linha nenhuma de nazca,

apaga.


Ensaio sobre a Pieguice

_ Reli meu último poema e me achei ridícula.

O Senso crítico, o estar em si, o detestar a suas emoções, Freud em quatro estações: O mesmo andou dizendo por aí que SÓ quem é inteligente é que pode ter senso de humor.
Tenho notado que poemas violentos ou, chamados pelos aluninhos "cult" de Letras ~~viscerais~~ "agradam menos".

Roland Barthes, em seu "A Morte do Autor" diz: "toda vez que um autor é lido, ele morre."

Bem, deixar morrer.

Tive aqui que invocar Barthes, tive aqui de explicar o que é simplesmente morrer num texto:

Thais Monteiro morre toda vez que vocês me odeiam: Digamos que é assim:

Quanca a Macabéa não tem assunto, ela pura e simplesmente fala de: parafusos.

acho o tema
parafusos
um
tanta
interessante
eles
vem
eles
vão
eles
amendam
o que
não
funciona

Achei meu último poema piegas, mas, entretando, eu, piegas preciso chamar Barthes e dizê:

_ Camarada, tô querendo é chorar comigo mesma, me empresta o lenço?





acrilic in red

três pontos
tracei
quis
dizer
quis inventar a engenharia
do seu sorriso
roxo

a sombra 
foi
branca

o carvão
manchou
o seu colchão
de
vermelho

talherar os seus
olhares
com
um
riso
que

CEDO

arrumo a cama dos seus pais
busco os trezentos
jornais
limpo a mesa
três
garras no
meu

Peito
acordo
cedo
finjo
que
nada

Aconteceu
mais uma vez
eu te liguei
rasguei
a minha

Tela
quebrei
a TV
e a geladeira
bebi
o teu
vinho
com
seis
cubos
derretidos
de
medo


15 de jan de 2017

Chiado de Peito

O touro quando jaz
No sofá 


quente
Se refaz
Toma café
Com dentes

Carangueijinho
Bicho que anda
A recuar

Faz versos faz
Lentes
No peito
Sabiamente
Mastiga
Três sementes
Da pulseira
Se jacarandá

Se vale o que
Respira
Se fuma o que
Não deve
Um tabaco
E retira
O nome
Da flor
De
Maracujá

Mas diz, Pessoa
Das cartas
Do ridículo
Do início
Eapantada
Da tua pedra
Das quadras
Do teu cantar

Hoje ando por
Entre
Veredas
Ponta
Do
Fim
Pontas esquerdas
Os pés pra nunca te
Acordar
De mim


Família Figueiredo

Do latim
Figueira
Daqueles
que
não estão nem aí em ferir

Daqueles que se incomodam
com o delicado

cigarro
aquele 
que 
fala
na
cara

"Pega tuas coisas e vai embora"

Família generosa na delicada arte

de baforar
na
tua cara

Cavalos Selvagens
que manda plantar

Sem inchada

Família
que
ri
da
tua
fala

Censura o almoço cristão
taca água
na
planta

Lê a bíblia ao contrário
e te oferece

Um dicionário.


Funk Luso



Portugal
quando baila
Llansol
quando
dança
Pessoa
quando
enterra
Cesariny
faz
neguim
tremer
faz
pretim
ir
pro
Porto
Sintra
faz
Al Berto
visitar
a Cida
do Capão Redondo
Faz Camões
dizer
Frejo
na
Marginal Tietê

14 de jan de 2017

No Subject

De: Usuário usuário@dominio.com.qualquer

Para: Outro usuário outrousuário@dominio.com.qualqueroutro

Data: Ontem

Assunto: (sem assunto)

Postado por: domínio.com.qualquer
“Ya somos en la tumba las dos fechas
 del principio y el término, la caja,
 la obscena corrupción y la mortaja,
 los triunfos de la muerte y las endechas.

 No soy el insensato que se aferra
 al mágico sonido de su nombre;
 pienso con esperanza en aquel hombre”

                                (Jorge Luis Borges)


Suspeito agora o espanto com que receberia essa mensagem. Mais espanto ainda seria me imaginar aqui, a essa altura em que nada acontece, tentando acompanhar a velocidade com que tudo me deixa pra trás – havia um tempo em que eu parava para observar, mas hoje eu paro: parei quando a caneta ia pra frente e pra trás como uma espécie de psicografia de um eletro encefalograma: a precisão me escapa em reflexos de um outro que foi preenchendo insuspeitadamente os meus movimentos, os meus humores, os meus bons dias que mastiguei no fundo da língua frouxa que bate e volta no céu da boca enquanto ofendo vizinhos e espanto os zumbidos agudos de crianças que rasgam o que ainda insiste ouvir. Entenda, O., agora não quero ouvir mais nada pois não há som que chame aquele que estava aqui antes deste outro chegar. Se me pedem licença não pedem para esse que nestas linhas parece falar, educadamente ou não, eles se dirigem a alguém que teimou em aparecer no último ato – Ato: deixe-me dizer do que não acontece ao fim dele. Já devo ter mencionado algo algum dia das coisas que não acontecem, de ausências, de insolitudes, do movimento que não se realiza, do corpo no fundo de uma cama, de um rosto no fim da memória: Era o meu que outrora você havia reconhecido como quem entra numa casa vazia e faz erguer a poeira de peles e toques de corpos que já se perceberam e com força violentaram o encontro.

E hoje eu não te encontro mais.


Então, os finais de semana costumavam ser piores. Eu poderia te encontrar em todas as esquinas da cidade, eu poderia te encontrar num posto de gasolina antes da nossa viagem, numa farmácia para alguma coisa acabar com a nossa ressaca, num restaurante mais caro quando você tomava a frente para pagar o meu almoço e eu, com uma espécie de falta de graça esperada, te dizia que pagaria depois: eu nunca pagava e você coagia com essa forma de me livrar do embaraço de depender de você, eu dependia do modo como você me carregava pela cidade, eu dependia do seu sorriso quando de longe nos víamos e você e seus filhos e seus vizinhos e seus empregados e seus tios seus atos insuspeitos sua carreira seu casamento sua verdade que todos sabiam debaixo dos olhares a mim: eu era a verdade, a carta interceptada, o telefonema grampeado, a sua biografia não autorizada, as conversas baixas nos cantos dos bares, o deleite da confirmação mútua dos fuxicos dos teus colegas de trabalho, a insônia da tua família, as desculpas tortas do teu sumiço. Se quebrassem o teu silêncio ouviriam o meu nome que chamaria num sonho agitado debaixo da tua língua que, mais cedo ou mais tarde, iria te denunciar no ato falho de um café da manhã:

“Hoje eu sonhei comigo e eu estava só. Havia você me garantindo uma samambaia na nossa varanda, balanço de rede, a mão suja da terra da nossa horta, o beijo na testa dorme tranqüilo meu bem e sonhava com a gente e ali você preocupada com os seus filhos que eram seus pais e eu falava com você e você olhava abruptamente para o outro lado da rua de uma cidade do leste europeu dessas que a gente nunca imagina estar como Budapeste Bucareste Bratislava e ninguém entendia o que eu falava: reclamava o seu nome que já não era o mesmo naquele idioma tão longe de ser romeno inglês húngaro latim provavelmente alemão que também não sei falar e via a cor da tua blusa vermelha pelos monumentos bege e você sempre estava de costas atravessando a rua para onde tinha olhado e por mais que eu rodasse a cidade, que agora era aquela que eu crescera, eu voltava para a calçada que você deixava com a sua blusa amarela e o teu rosto que não era teu, era meu e acordava assustada fitando o teto, um buraco perto do bucal da lâmpada, uma mancha atrás da porta e as coisas exatamente como as tinham deixado antes de dormir: sapato virado, toalha na porta do armário e assim, antes mesmo da luz invadir o quarto, eu ia decodificando meus passos antes de ir para a cama e alguma coisa me diria que você esteve lá sem deixar sinais no desarrumado que a presença faz. O sonho que esqueço na pia antes do café.”

Há um grande equívoco no que se entende por vida, O., e você, mais do que ninguém, entenderá do que falo neste momento. O que seria falar de vida para a gente que só morre? A vida não é o estado em que a gente se mexe inspira expira fala engole pisca treme dói força geme estrala expande retrai dobra recolhe. A vida, O., é o som do teu nome letra voz ar que eu vibro no teu ouvido: eu você e precisamente agora e ontem e antes e tudo: nós quando você só vive se eu te chamar na marca do cigarro que você fuma, no caminho que você faz todo laico dia, no livro de receitas guardado na última gaveta de onde tirávamos o gosto latente dos nossos jantares, no rótulo do vinho de concessões às verdades que sai da boca tinta vinagre acre no pesar do que se lembra no dia seguinte, nos convites que você atende: O. e Família e eu te esperando voltar.


Hoje pela manhã esqueci um detalhe do teu rosto e agora eu começo a falar da morte.

Ouça

Backstreetoys

À Bruno Brum

tenho certeza
que Bruno Nunca fez
bundalelê
na festa da empregada

tenho certeza
que Bruno Nunca fez
sertanejo
na formatura
da desejada
Carolina
que
preferia
Wannabe
ao 
invés
do
Brian
quando
seu comparsa
passava
cola
na
prova
de
história

mas tenho certeza
que esse menino
nunca
ofereceu
vinho
pra Amanda
que
hoje
não
faz
nada
além de gorar
a empregada.

Ouça

London Line --------




                                                     monument
leicester square

                             westminister begins with the 
bang
ring
trafalgar
cabin

circle


line
to
complete

Brixton
Camden

TOWN
Angel
of
              Victoria

Law

Margareth
Maldives
Belushi's

Pub

Brazil
in 

Stockwell

Charles

Across

Jubilee Line

Came Scotland
yard
paid
SIX
Pounds

                                                                   Docklands
                                                               Light
                                                               Tatcher
                                                              Way

Say: I apologize

William is fine
No translation
to
live
or
die.





Soneto da Pilota de Helicóptero

Demora pra saber o quanto você demora a minha história
Demora pra saber em quanto tempo você desce e fica
Demora pra saber o sobrenome da minha memória
Demora pra saber o quanto você desafia

Demora pra se aconchegar na hélice giratória
Demora pra se adentrar riso que duplica
Demora pra saber o raio da estatística
Demora pra calcular o número e codifica

O que é para pousar no que irradia
O que é para negar posto Guernica
O que é Irlanda ou a Austrália

Quando é pra passar arnica
Quando é pra tocar guitarra
Quando é pra fazer despedica



Snapchat



nap
i need to sleep
i need to see the need
i need to take
a nap
needdles faques felt
the nickels your queen give for
me and the key
i need to fit inside the need
inside the weed nobody smokes
drugs i need
a piece of the nap to kill
what i need
sheeran bieber swift gaga nicki image
snap my plagio





13 de jan de 2017

A rua que não é essa.

e então você notou que aquela rua em que ontem tombávamos tortos foi tomada da cor que nos denuncia sujos: corpos estranhos que empedra o fluxo dos transeuntes desta clareza tão nítida e tão sólida e tão certo é que fazem dela, esta rua, o meio e não o fim de suas procissões cotidianas e ainda somos ateus. esperemos, então, que a rua em plena força de contração nos aborte em abrigos subterrâneos caso não tenhamos força de nos incrustarmos nos seus cantos, como camuflagem mancha pixo margem e o cheiro fermentado grudando no passo tonto a que chegamos no primeiro indício que não pertencemos mais ao reduto do jornaleiro que nos olha desconfiado ao evitar a graxa nas fendas cutâneas de esquinas esquivas, da epiderme sedenta do nosso gole, da nossa fuga, de um outro lugar para longe desse mesmo em que pessoas chegam a algum lugar, se cumprimentam e continuam a nos pular: poça de lama: indício que há de ter chovido e que ninguém se molhou conosco.

penso aqui, meu caro, quantas ruas eu precisaria vencer até chegar para mais perto de um lugar qualquer, quantas vilas cravadas no meio de quilômetros e distâncias até que se reduziram a passos de quem certo conhece o caminho para as visitas das tardes e os berros da noite, quantos objetos esquecidos na tua cidade para me fazer voltar pelo mesmo caminho tão diferente: _ Bom dia, Sr. Roberto! Tenho certeza que se bater nesta porta um senhor de cara espremida abrirá o mau humor de quem é importunado por um estranho em lugar do seu reconhecimento tão amigo e eu imaginaria ter demorado trezentos e cinquenta anos pra voltar a este mesmo lugar.

talvez só tenhamos passado por três tons desse céu para que a máquina da cidade comece a articular seus ruídos monofônicos, para que sejamos esquecidos a cada conversa no hall de entrada dos edifícios a pleno vapor e neste instante as placas só conseguiriam indicar o quanto estamos perdidos de nosso pouso.

deslocaram uma pedra que se soltou de algum muro e passou a não integrar mais nada além de uma forma tão singular e desfuncional de sua própria ruína. O sol agora se põe sobre nossas cabeças enquanto, recolhidos, esperamos outra chance de enfrentar os  suores de quem saiu e não se lembra mais como voltar para o cheiro fresco dos jardins em que crescemos, dos panos do vestido limpo dela, o tilintar de copos e talheres nas reifeições em comunhão, risos no cômodo ao lado, domingos lentos e calmos e a certeza de que seremos felizes todos dias juntos, amém.

 e por mais longe que alcancemos, meu bem, é pra trás que olhamos e vemos que nos deixamos a cada passo sem qualquer vestígio. nos distraímos com as luzes e com a vontade de permanecer sempre até o nosso encontro na avenida que atravessei e te vi tão de longe voltar sozinho. continuei.



(originalmente publicado no projeto: uma espécie de bazar)


Ensaio Sobre O Silêncio

Qualquer cor que a tua voz elucida chama a cor que reflete na pupila. A cor que não vê claramente, mas que busca nítida memória daquilo que nunca pode ter acontecido.

_ Hoje meu irmão invocou: silêncio.

Pensar silêncio é fazer um estardalhaço com a cabeça. Silêncio é som que invoca, silêncio é plutão chamando o ferro pra dentro de si. 
Perceba que ninguém pode chamar a quietude sem se fazer inquieto. Berras silêncio e vem a imagem: Sol, campo calmo, Benjamin, um livro, gravuras, uma borboleta voando em 8.

Silêncio se lê. Silêncio página vazia pedindo os atritos atônicos -  o espaço e o planeta, seus pensadores e a agonia, a morte e as preces, as preces e a resposta que espreme no peito e volta pra dizer "amém".

Silêncio é nada, silêncio é a carta da namorada que foi extraviada pelo carteiro que assobia no semáforo.

Silêncio é agora o que você poderia ouvir se eu quisesse calar.

Ouça

nomefobia

o nome já
revela
ao lado
o nome
fala
o
nome
chama o que é 
tocado: me encontra
ou


desvia
se esquiva
por 
onde
deriva
seu
olhar

me fala mais
uma vez
de onde
vem
o seu
universo
e as tuas dores

conserta
dizia
o meu
nome

calado
ao lado 
de um sujeito
que aprendeu a

me ser.


Ouça

12 de jan de 2017

Monolito

Chegou-se um tempo que todas as gamas de sentimentos possíveis foram quebradas nos életrons, nas voltas do núcleo, num buraco de minhocas, no sustentável giro de um átomo.
Chegou-se um tempo que som de uma voz foi reduzido à vibrações que saem da garganta, sempre, cansada e retorna no martelo surdo, no clique que ignora o chamado.
Chegou-se um tempo que o olhar virou um susto, o olhar virou o desvio, o pedido virou incômodo.
Chegou-se um tempo que o tempo virou a dobra de um relógio comprado por uma variante do bolsa de valores em Nova York, quando o bolsista, angustiado, precisou sair pra comer na Times Square.
Chegou-se um tempo que a música virou a sacudidela da cobradora que, cansada, sentiu-se nada quando, e, num século seguinte, o cientista não soube desviar o cálculo que colidira no núcleo do Planeta do vendedor de hot dogs que perguntou as horas, meio entediado, para o bolsista da Times Square que casou com a cobradora do coletivo Santana cuja o jornal estampa o desastre na Marginal Tietê, notícia essa que comoveu o boy ao lado do vendedor de cachorro quente da Times Square.




Ouça

Adornos em Ireland

Never let me down
listening 


a name 
inside
the night

Forgetting languages 
throughout the 

lights


Vanishing the 

colour of the


hair


taking your 

breathe


Smiling 

across the 

sound 


of the voice of making a little 

sense


sense 

shine 


of your new rings


your finger 

holding


my 
mood

telling


you

stay a little longer
I
go
with
your
green



LISTEN