segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

SMS PARA CALIXTO.

Seu sol resolveu
aparecer
nos meus fones de ouvido.
[space]
and I say it's all right.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Apresentação (da sinopse).

ou Monólogo no Espaço da Suspensão


eu preciso escrever. notei isso quando aqueles dois disseram que precisavam ir ao banheiro. imagine! dois marmanjos indo ao banheiro juntos! ouço os mais [abre aspas] descolados [fecha aspas] dizendo: e o que é que tem? não tem nada, eu ousaria. fora o fato deles trocarem piadas o tempo todo pelejando a testosterona que lateja nalgum lugar que incomoda tanto. eles se acusam e molestam o limiar frágil do que deve ou não render-lhes algum prazer na vida. prazer estranho aquele de coçar dentro da orelha sabe-se lá o que descame. coisa sádica essa de enfiar as unhas arrancando pele solta de sobra do toque que lhes faltam, e falta o bom senso: a felicidade mais possível é mera questão de tato. toquem depois de lavarem as mãos de onde querem ir, mas voltem. foram na altura do discurso quando absolutamente todos estavam ofendidos, ao menos tiveram o cuidado de se justificarem antes de se levantarem, como disse, juntos. malditos! eu não os acusavam! delicadamente pedem licença e vão ao banheiro contra todo e qualquer pedido plausível: fiquem que eu paro! mas a bexiga uma hora estoura. e com quem eu falo? estou testando a resposta do universo nos senhores: esse saco há de aguentar pela conclusão que pode me conter, senão estouro eu que estava com vocês o tempo todo até o momento da defesa fácil: "vá saber, né?!" - sempre é bom dois pés atrás. se tiraram todos da reta e passei sozinha. nem notaram que eu falava de mim e que queria palco montado, não a cortina escancarada. eu queria que vissem além da margem do filme preto & branco, não o microfone no cantinho ignorado. eu queria que me perdoassem a falta do estilo alexandrino. e responderam em dissílabo evidente. "Tá bom", deixei no recado.

sábado, 21 de novembro de 2009

Sinopse.

ou Metaverborreia Retórica Ressaqueada Por Extenso.


Ela pensou que precisava escrever. Devia ser por isso esses olhares nos corredores trabalhistas. Devia ser isso os tantos bocejos escancarados feito leão-mgm-metro-goldwyn-mayer: e a história que ela começou nem era do começo. Devia ser por isso que eles se levantaram para ir ao banheiro JUNTOS sem o mínimo pudor, sem o medo da bichice convencionada. Devia ser a ausência da vírgula entre verdades concluídas com a rapidez de uma frase sendo formada entre o abrir e o fechar da boca e sim! É assim mesmo, gente. Entendam que ela descobriu a verdade do mundo agorinha mesmo - premiados sejam! Escrevam cada coisa que ela disser, andem, escrevam ou então tomem remédios pra memória, dizem que peixe é bom pra isso, peixe centrum vitaminas de A a Zureta, xixi caro esse, não?! As vitaminas irão pela descarga, sim! Mas guardem isso tudo, anotem na palma das mãos com tinta indelével, ou melhor, tatuem na testa em desenho japonês, nanquim de cadeeiro, tinta de caneta bic que nem a Cristiane F. Marquem absolutamente tudo o que ela está dizendo. Façam exercícios de meditação para que possam envelhecer com a cabeça boa pois vocês se lembrarão de cada palavra que ela disse nesse quarto de hora. Vocês vão precisar disso. Vão! E precisam, por favor, entender que o "eu posso estar errada" deve ser totalmente ignorado e que ela ainda deve cumprir com esses protocolos de humildade pra não ser chata ou presunçosa, entendam que ela tem completo horror só de pensar seu nome descendo e subindo nesses elevadores em que a sua voz tão alta se disfarça no exato 5º andar e a porta revela um diminuto "pedante" - pedante?! peidante?! PEDANTE?! Não! não venham com essa que ela manda todo mundo se fuder e todos hão de achar um convite razoável já que absolutamente todas as suas gias vieram pela mesma janela em que você se encostava para verificar se deveria vestir um casaco ou um traje de banho nesses trópicos capricornianos. Mas ela já havia decidido por eles: hoje há de chover! Olhem as nuvens, sintam o cheiro do asfalto quente sendo resfriado, observem o comportamento das moscas que já voam com as asas receosas: melhor se abrigarem na sua garganta incessante pois ali é cárcere semi-aberto. Ela está falando, escute, escutou? Ela está falando sobre o fato de você escutar e sobre se perceber cada palavra entrando entre as brechas dos fones siliconados. Deve ser por isso que ela sempre tem essas metalinguagens tão originais, imaginem só! Ela é discípula de Machadinho (há de se encontrar intimidade entre deuses e eles gostam disso porque só pode ser deus quem sabe que é deus e deuses gostam de estar entre deuses e entre deuses que nem sabe que o são), imagine só se aquela mosca decide entrar na goela frouxa de seu interlocutor: prisão perpétua! Imaginem só ser tão esperta e tão sarcástica. Imaginem só leitores, ser leitores dessa sutileza que vos acusam disso que ela os elegeu. Ela ri enlouquecida. Imaginem se ela resolvesse escrever repetindo técnicas baratas. Leiam, porque ela pensou que precisava escrever.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mp4 Dei.


Ontem descobri que deus se comunica comigo através do meu mp4 Player, mais especificamente nas canções do Death Cab For Cutie, o que pode comprovar Sua aprovação quanto a disseminação de arquivos not copyright, capiche? O que é muito, mas muito, confuso foi que ele só passou a se utilizar desse meio comunicativo depois que comprei o aparelho original, com nota fiscal das Americanas. Vá entender os divinos desígnos. O fato é que ele trocou uma ideia comigo enquanto ouvia Grapevine Fires do Death Cab, pois! E não, não sou esquizofrênica. Grata.

sábado, 24 de outubro de 2009

Menarca

eu não sei quando poderia
menstruar essa fêmea ovulante,
acentuar à papila evidente
o gosto saliente do brilho
delinear um cílio manchado
não de lágrima, mas de chamar
e receber o outro chamado
eu diria isso tudo em sigilo
nos lábios prontos a admitir
os sibilos do batom rubro
naquela tintura renunciada
àquela mulher que há pouco vi
dentre a declaração borrada
no teu espelho hoje de manhã.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

a quarta aula.

A profª Yara engordou. Isso foi o que eu pensei hoje pela manhã ao cruzar o meu caminho com ela.
Dona Yara foi apresentada como professora de matemática da 6º série do ensino fundamental da escola municipal Dep. Cyro de Albuquerque, exato ano letivo em que eu coincidentemente havia decidido renunciar às práticas aritméticas. Não me julguem tão preguiçosa antes de tomarem conhecimento de como esta disciplina havia infernizado a minha breve vida escolar até então.
Quantas foram aquelas professoras que disparavam fórmulas, teoremas, equações com a velocidade de um raio que com a mesma rapidez ricocheteavam o meu cérebro fantasioso e retornavam para seus conhecimentos tediosos e automáticos permanecendo para sempre intocados e isolados de qualquer possibilidade de penetrarem na memória sonolenta daqueles alunos de hálito dormido os quais estabeleciam como principal meta, durante aqueles quarenta e cinco minutos, reogarnizar o cronograma pedagógico a fim de alinharem as aulas vagas diárias pra depois do intervalo resultando na tão almejada dispensa pós-canjica.
E então veio a profª Yara com olhos esbugalhados, cabelos negros e grossos repuxados com um arquinho dentado de plástico, camisetas com retoques de cândida e gola esgarçada e aquela voz estridente de uma soprano de cordas reumáticas que, para decepção geral da galera, residia ao lado da escola e nunca sequer tencionou dar-nos o alívio libertário após as merendas.
Nem a sua voz, nem a sua paciência digna de inveja de personagens bíblicos como Jó por exemplo, me dissuadiam da decisão: eu não iria nem mesmo me esforçar em acompanhar aqueles símbolos absurdamente gregos tais como alphas (peixinhos de barbatanas abertas), tetas (de uma representação tão infame diante seu potencial subversivo) e pi's (a tal da casinha ao estilo colonial).
Para me livrar do tédio, comprava antes da primeira aula, um exemplar do jornal Notícias Populares. Então, assim que a Dona Yara adentrava no recinto, se deparava com manchetes do tipo: MA-MA-MATARAM O GA-GA-GUINHO, as quais me introduziram no concretismo literário.
Depois de um semestre a profª Yara finalmente conseguiu cair na graça geral, até mesmo o Renato-Coruja resolveu deixar seus sonhos matinais pra resolver teoremas de pitágoras no quadro. Mas eu continuava interessadíssima nas inventigações contra a quadrilha dos palhaços que, a custa de um pirulito, dopava as crianças e vendia seus rins no exterior por uma quantia superior ao custo cinco super nintendo com todos os cartuchos juntos. No milagroso silêncio durante as explicações, ouvia-se o farfalhar das folhas que eram manejadas cuidadosamente para que não vertessem sangue de suas páginas carníficas. Dona Yara, pelo menos uma vez por semana, se sentava ao meu lado e perguntava qual era o balanço semanal de rins infantis e depois me implorava para que desse atenção a isso depois do horário de suas aulas. A princípio achei a solicitação razoável, mas a decisão já tinha sido tomada: a matemática estaria para sempre banida de minhas ciências. Eu estava irredutível até um dia que D. Yara pareceu perder enfim seu poço farto de paciência.
Ao 26º rim pueril exportado, o jornal foi abruptamente tomado das minhas mãos. Enquanto D. Yara se dirigia ao lixo, não se ouviu o mínimo ruído fora aquelas folhas sendo raivosamente picotadas. Ela não disse nada. Eu, catatônica, não ousei nem inflar os pulmões em objeção. Após enterrar aquele jornal no lixo, a aula prosseguiu normalmente. Alguns que ousaram me olhar foram ineditamente repreendidos a gritos histéricos: "Rodrigo! Olha pra lousa! Dê atenção ao que merece atenção!"
E nesta manhã, olhando a Profª Yara naquele instante em que nos cruzamos, quis dizer: graças a senhora o meu cérebro permanece operante juntamente com meu sistema excretor, mas ela estava tão disforme da minha memória que tudo que pude fazer foi notar que de certo seu rim deveria estar comprometido resultando em alguma retenção de líquidos.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

pick-up stuck.

você sabe aquela sensação de jogar pega varetas em que você precisa fazer algum movimento mas acaba percebendo que todas as varetas soltas já acabaram e absolutamente nenhuma delas parece estar numa composição digna o bastante para arriscar uma puxada sagaz por baixo? sabe quando você tem certeza de que qualquer mínimo toque vai causar danos irreversíveis àquela trama que se sustenta frágil pelo acaso displicente em que as coisas foram jogadas no meio das nossas vidas? você me entende quando eu falo que nenhuma cor se salvará depois dessa minha vez? você pode ter ideia de como estou apavorada com isso? você se deu conta de como a mais cuidada cautela se assimila a um trejeito paquidérmico? você percebe como cada um desses espetos se tornaram tão essenciais uns aos outros que de todo esse erro, esse foda-se, esse let it be, se tornaram em si o alicerce do nosso único acerto? você tem noção de como não quero derrubar tudo isso com o gesto trêmulo e vacilante? você consegue conceber o simples fato de eu não poder seguir adiante ou mesmo dar as costas a essa geometria tão afetada? não há formas fechadas nisso, vê? é tudo muito aberto num ângulo caótico e o restante dele é tudo daqui a frente. você se lembra de que já arriscamos a tangente e o único ponto de fuga se tornou a base de todas as outras peças? você pode precisar o quão delicada essa arquitetura se compõe de modo que qualquer vibração periférica pode nos quebrar em cores distintas e distantes como se este edifício estivesse já viciado à espera de sua ruína iminente? você reparou como cada divergência dessas retas se tornou o nosso ponto-de-equilíbrio e isso só converge ao nosso favor quando continuamos prendendo a respiração diante do próximo deslocamento alheio? eu quero ficar. e então algo começa a se desfazer quando você repete:

_ É a sua vez.