10 de abr de 2017

Dobra do Nó

Ela diz que voltei
a sonhar
Que as linhas se sobrepõem
Que deixo pra lá a política
Que afasto meu pé do terreiro
Que vejo o mundo nítido
Que penhore as dores
Que melhore a imagem
Que esqueça tendências
Que escute

Ela diz pro ar circular
Diz que é pra esticar o fio do novelo
Andar e mexer no cabelo
Parar de evitar
a sombra do espelho
Diz que tudo vai melhorar
Para mostrar o verso numa roda
e me lembrar sempre de me olhar

O celular vai tocar
Não preciso fazer dívidas
Não preciso barganhar amores
Não preciso rir dos deputados
Todos loucos
Todos tortos
Todos prontos para babar no discurso da Câmara Nacional

Ela me diz para olhar pros lados
Para ser breve
Para não esquecer a bicicleta
Para tomar conta do cachorro
Para tomar o ar ao falar já que a gota de desespero secou

A escrita nunca deixou de falar
Nem aos hindus
Nem a Célia no meio do bar

Ela me disse para tomar cuidado
Virar o discurso
Empacotar vocativos
Ligar o Spotify
Caminhar perna por perna
Não disseminar o
poema
antes do galo cantar
Que o mundo vai acabar
Mas antes
É bom dobrar as cobertas
Treinar o inglês
Procurar um emprego pela Catho
Atualizar as notícias
e pensar no corpo.

Ela disse que está
em todo lugar.

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