12 de jun. de 2009

self fortune.

"A lesma quando passa deixa um rastro prateado"
AnaC.


Quando era pequena sentia um amor enorme pelos bichos e disse que seria veterinária. Não foi. Ouviu o tal do roque e disse que montaria uma banda bem barulhenta. Não montou. Do ônibus viu um mendigo e disse que se meteria nesses lances da política. Não se meteu. Numa tarde fria leu um poema e disse que cantaria por aí. Não cantou. Agora essas coisas já passaram e dizem que distraída ainda vive (de alguma forma).
Enquanto ela dorme vá e sussurre em seu ouvido que quando anda pela rua deixa um rastro prateado, assim bem delicadamente, sabe. E aproveita e fala pra ela que esse viver displicente acentua o brilho fosco dos seus cabelos desgrenhados e tão cheio da essência do tabaco que se desfez em noites sem sonhos e é quase tão sublime quanto música acabando.
Então ela escolheu não ser e foi ela.

28 de mai. de 2009

manhã sem sol para ele.



A Fabiano Calixto

Eu disse agora pra você que foi um milagre. Foi assim, ó, vou te contar direitinho. Era 5:00 da manhã e recebo teu recado de SOS e te encontro naquele posto de gasolina. Não digo nada e te abraço e você confessa que era tudo, tudo o que você precisava. Fomos pra minha casa e começamos a conversar, fumar, beber café. O rádio ligado com algumas notícias matinais e de repente começa a tocar "While My Guitar Gentle Weeps" do Harrison. Eu nunca havia ouvido aquela música tocar no rádio e do nada tudo fez sentido. Nunca mais ouvi essa música tocar novamente, eu te disse. Deve ser porque nunca mais te vi passando por aí nas redondezas. Eu podia fazer disso literatura, mas só o fato, o simples fato já é o máximo que poderia nos acontecer naquela manhã. Não transformo nada. Eu apenas digo: foi um milagre enorme tudo aquilo. Você deve ter ficado mais uns 10 minutos e depois foi pra casa a salvo. A salvo de qualquer coisa que poderia nos matar naquela manhã sem sol. Pelo menos naquela manhã. Depois tratamos de nos perder pra além de qualquer data ou qualquer cor em preto e branco.

24 de mai. de 2009

conversa da ponta da mesa.

Começo a dizer porque estou sentindo vontade de me ouvir nessas expressões que você faz a cada palavra que vou dizendo sem pensar. E tudo ouvido assim tão de perto parece bobagem, então o silêncio veio a confirmar que essas bobagens fazem sentido. É quando comento do que vem e do que vai enquanto você junta para o centro da mesa os grãos de sal que erraram o prato, é quando te falo de medo e você procura o isqueiro na bolsa sempre tão cheia de coisas como se nunca mais fosse voltar pra casa, é quando esbravejo maldições ao que existe por alguma corriqueira auto-frustração enquanto você se vira procurando o garçom e eles sempre com essa mania de nos ignorar assim com tanta sede e tanta urgência de nos embebedarmos para o entreterimento semanal, é quando começo a falar de amor e você ri das reminiscências de algo meio caipira no meu sotaque que muda espontaneamente em cada situação como se não fosse de lugar algum e de todos eles, é quando menciono permanência e você me pede lincença para ir ao toilet, sim, você diz toilet como se esse cubículo impestado de aromas ilícitos fizesse juz a tal designação, é quando percebo que estamos todos falando sozinhos enquanto você me escuta e responde: eu também não quero ser só me contando qualquer caso da semana passada e tento limpar o borrão indelével das lentes dos meus óculos, mas o pano da camisa é sintético e só espalha essa nódoa que se evidencia quando te vejo contra a luz. Então digo intermináveis trivialidades te pedindo pra ficar e você consulta o relógio. Ainda é tempo para você reparar na blusa estranha da moça que passou atrás de nós me dizendo que sim. E eu prossigo.

20 de mai. de 2009

Quatro diriam,

(mas uma está atrasada e a outra parece que não vem mesmo).


Aquela foto tão bacana que tiramos na augusta de 10 megapixels com retoques do photoshop e direito a bordinha fake polaroid foi pro saco quando inventei de limpar as cartas antigas de amor em formato word 98. Sabe-se lá porque ela tava ali no meio.
Sorry, baby, nosso estandarte da tropicália capricorniana não terá manchas de desgastes. Se bem que não usávamos chapéus engraçados nem colares havaianos e, no mais, o modo sépia também não convencia muito. Volta tudo: às 18:00 nos encontramos, embora sabemos tão bem que para chegar a consolação, provalmente, só depois do rush.
Ela disse que só iria chegar depois das dez. Ainda tem tempo de mais um torpedo enquanto ele aguarda na fila do banheiro. Quando voltar já terá uma garrafa nos esperando com conversas de encontros e outros. O tópico tão aguardado:

_ Ah, então, era basicamente isso, entende?
_ Sei, sei.

Fim.

Mas eu ia dizer alguma coisa. Diz. Eu acho que você já disse. Mas o que era? Era isso de ser o que a gente é. O que que tem? Não sei, acho que é isso mesmo o que você disse. Mas qual parte exatamente? Todas elas. Mas eu não disse tudo também. Então fala. Mas eu também não sei o que seria exatamente tudo. Estamos aqui há 1 hora e meia. Pois é, há tempo. Há tempo? Há. Há tempo pra quê? Há tempo para falarmos tudo. Para falarmos tudo até quando? Ai, até quando der. Mas e depois? Depois a gente vai embora. E se não falarmos tudo? A gente vai embora sem falar mesmo. Aí depois podemos marcar pra outro dia esse lance de falarmos tudo. Combinado! Consolação depois das 18:00? Fechou.
Acho que ela não vem mais. É, acho que não.

(Post originalmente publicado no blog 'Todos Dizem Eu Te Amo" em parceria daqueles que também não foram).

13 de mai. de 2009

provas.

Sabe, foi um desespero quando te vi. Jogava isqueiros nos cinzeiros, acendia bitucas no fogão. Esquecia de passar na padaria e comia as raspas da geladeira. Eu te disse que foi uma danação toda. Pressenti um dia, acho que há três anos, durante uma terça-feira em que voltava do serviço, que você seria exatamente assim. Te encontrei há três semanas e foi daí que tive certeza quando um fusca azul passou na avenida, é que tinha pensado assim, quase como simpatia: "se um gol prata for o próximo carro a passar, é porque o amor é confirmado". E se confirmou! Agora tenho certeza. Você é o amor que previ no engarrafamento da Rebouças, é que fiz um pacto assim: "Se eu conseguir prender a respiração da Oscar Freire até a Faria Lima é porque o amor vai acontecer", então quando buscava ar na Henrique Schaumann eu soube que era você. E não poderia estar mais certa.
Agora as chaves estão na mão, aquelas que abrem qualquer porta.

27 de abr. de 2009

últimas notícias.

A família se reúne em torno das reportangens semanais. O som abafado do apresentador - mais um carro em chamas na marginal - suspende o que restou do sonho: um casal burguês, década de 60, fazendo-se revolucionários dentro de uma cabana e de alguns terrorismos particulares. Não os conhecia.
vira a página pois o que se pensou já está passado. Idéia com gosto de cabo de guarda chuva. Desenvolva um samba de cabeça ao invés de ser tão sensorial. Anota na palma da mão: "parar de procurar pulga em cachorro de rua". No banho ainda pensou enquanto se desembaraçava que haveria alguma metáfora bem bonita pra falar do corpo. Esquece o toque e procura a imagem: a mesma. Conta o tempo e sai de casa levando atrasos os quais supõe contar três anos e uns quebrados. Cada rua, cada janela, cada entrada aberta ou fechada compõe passo a passo aquela história que não vai vender. O ônibus diminuiu a velocidade - atraso: três anos e dois quebrados - todos se apertaram para sentir o cheiro de borracha queimada que ainda saía da carcaça fumegante, contemplam a origem do congestionamento-recorde da quinzena. Entra no trabalho e anuncia:

_ Vou escrever um roteiro.

De fato, escolhera o assunto errado.

18 de mar. de 2009

como se sustenta o mundo.


"Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação"
(CDA)

Então cheguei perto de você sem que me fizesse perceber. Não exatamente como presença nem como ideia, mas como eu, e te vi dormindo. Acendi a luz do teu abajur e chamei o teu nome, o nome, como se nesse nome não houvesse o intento predicativo, vocativo ou sujeito - como se o nome nem mesmo fosse som, como se o nome fosse as tuas células, os tecidos, os pelos, o tato, o toque. Como se o teu nome não invocasse lembrança alguma ou ancestralidades. Como se esse nome não tivesse morfologias ou derivações, por fim, como se esse nome fosse anterior a qualquer coisa e não se relacionasse com nenhum outro significado a não ser aquela palavra você que eu chamava. E este foi o primeiro ato dentro dos acontecimentos que se forçam.
Embora nos conhecessemos, era a primeira e única vez que travávamos contato - e não havia ali medo ou sobressaltos, não havia o que se esperar ou se iludir: fechou-se a cortina de nossas vidas e, agora oniscientes do nosso tempo e universo, nos olhamos. Não precisava, naquela atmosfera despida, dizer qualquer coisa, mas dissemos e, mesmo antes do reflexo da vida, do amor ou da morte, ouviu-se: "bom dia".
E fomos felizes até então.

9 de fev. de 2009

sobbing hiccup jazz.

Às quinze horas de ontem, Rita não fez nenhum comentário numa mesa de bar situado na Haddock Lobo. Às quatorze horas e cinquenta e nove minutos de ontem, Rita esvaziava os pulmões. Às quatorze horas e cinquenta e sete minutos de ontem, Rita engolia cerveja quente. Às quatorze horas e cinqueta e seis minutos de ontem, Rita lembrava de uma piada. Às quatorze horas e cinquenta e quatro minutos de ontem, Rita escutava Renato, o rapaz de personalidade forte e sagacidade invejável, contar um evento que nunca aconteceu. Às quatorze horas e cinquenta e dois minutos de ontem, Rita ouviu Cecília soluçar. Às quatorze horas e cinquenta minutos de ontem, Rita observava Conceição trocar os cinzeiros da mesa ao lado. Às quatorze horas e quarenta e oito minutos de ontem, Rita pensou em ir ao banheiro. Às quatorze horas e quarenta e cinco minutos, Rita precisava falar algo. Às quatorze horas e quarenta e dois minutos de ontem, Rita pensou em se despedir. Às quatorze horas e quarenta minutos de ontem, Rita estava quieta. Às quatorze horas e trinta e sete minutos de ontem, Rita fingia rir do comentário de Ângela. Às quatorze horas e trinta e dois minutos de ontem, Rita acreditou, como se acredita em qualquer coisa, que poderia ter uma boa tarde. Às quinze horas e dois minutos de ontem, Rita consultou a relógio duas vezes. Às dezessete horas e vinte dois minutos de ontem, Rita concluiu que a piada era muito boa e riu, no bairro de Santana, até às dezessete horas e vinte três minutos de ontem.

8 de jan. de 2009

a ponto de evitar um diálogo grosseiro

a revolucionária me veio com um livro de auto-ajuda. disse que o sucesso seria a repetição. repetição. repetição. repetição. repetição. a operadora de telemarketing tentou filosofias: 5 conto na banca da paulista, só que é papel de jornal - só um momento, senhora. / só um momento, senhora. / só um momento, senhora. Assim, fiquei preparada para não comprar a idéia, nem mesmo tomá-la emprestada. Pode crer. Alguma coisa mais que eu poderia retribuir? Eu pensei: quando não se acha o final da reta, se faz um círculo. Nada de pensamentos brilhantes, baby. Nada de ser tão esquisita por modismo, honey. Nada, nada disso. Então escuta que há uma porção de coisas por aí e que não estou interessada nas calotas do seu voyage: ando sabendo que você fez por amor mesmo, pra levar a sua garota para praia grande, então, preferiria que não me confessasse essa tua incapacidade de solidão ou seja lá o que freud preferir chamar (jung anda mais em voga ultimamente) entre as bibocas das malditas calotas e o óleo que escapa do motor - quanto essa lataria daria nas marginais para te livrar da idéia de que não vai a lugar algum?

(bobagem. preferiria que eu concordasse que elas forjam uma roda de dois paus; Então me diga ao menos: elas são daquelas que quanto mais você acelera mais parecem que rodam ao contrário? Há.)

mas vamos. vamos embora pra nos vermos amanhã. Hoje uma dose a menos de cinismo. A tal da revolucionária tava recitando o veneno que evitou a marginal para desviar pela contorno - com a corda toda, sabe. E esse anticristo amarelado, sheylla, esse anticristo amarelado, ai, esse anticristo amarelado - quem sabe ainda o escutará rindo e fazendo caretas na contra-capa. Mas, sheylla, eu já estou dormindo. Seu nome me deu sono, com todo o respeito. Eu te juro que não foi por altruísmo que eu me comovi, foi só porque eu me comovo e porque não me tranquei no subsolo. Então, acredite, acredite mesmo. Isso não deveria ter tanta importância, sabe, eu ainda estou num berço e essas palavras são móbiles coloridos girando e girando enquanto o bebê berra por leite - cry baby cry / make your mother sigh - nada demais, sabe. É que por mais que isso se solucione pra você, não se encerra pra mim: hã hã, princípio básico, honey, troque os títulos com a revolucionária se preferir.

_ Não é mesmo verdade?

Mas seria de uma ousadia sem tamanho encurtar esse piscar de olhos num som que me demandava a noite inteira. Deve haver outra maneira de te satisfazer, deve ter outra metáfora verossímil ou mais uma dessas antíteses por uma pataca;

_ Hein?

_ Pode crer.

Sheylla vai me chamar pra fumar por msn. Ele vai me oferecer seu celular por 100 conto "tem bluetooth". Ela vai me falar de linguagem corporal e aforismos lá vai "Uma caminhada de mil passos .... ... ...”, mas scotch não faz espuma ou bolhinha e no mais o que me diriam desse círculo que diminui / diminui / diminui / diminui até se parecer com um pontinho e outro pontinho e outro pontinho

2 de jan. de 2009

constatação.

Só hoje vieram me avisar que aquele senhor sentado duas cadeiras à direita da minha antipatia era mesmo Jesus Cristo.

8 de nov. de 2008

subterranean homesick blues.

às vezes a gente perde a vontade de falar, sair, rir, etc. E todas as coisas. às vezes a gente fica rodando em círculos . às vezes a gente diz qualquer coisa. às vezes a gente fica pensando em algo que poderia ser significativo. às vezes a gente não pensa em nada e fica na janela fumando. às vezes a gente pensa que dormir é uma completa perda de tempo. às vezes a gente marca a data para que tudo comece a dar certo. às vezes a gente adia os planos. às vezes a gente bebe até cair e acorda com ressaca. às vezes a gente come um lanche na padaria. às vezes a gente fica querendo que o tempo passe logo. às vezes a gente ouve bob dylan. às vezes a gente lê caio fernando abreu. às vezes a gente pega um ônibus errado. às vezes queremos coca-cola. às vezes reclamamos do tempo. às veze lemos as notícias no elevador. às vezes atravessamos o sinal vermelho. às vezes não temos nenhuma conclusão brilhante. às vezes a gente morre. às vezes a gente gosta. às vezes a gente se prepara. às vezes a gente joga paciência. às vezes a gente checa e-mails. às vezes falamos de permanência. às vezes a gente olha a paisagem decorada pela janela do trem. às vezes a gente escreve. às vezes a gente faz cadastros. às vezes é assim.
nesses dias.

20 de out. de 2008

Previsão Sem Tempo

Estou me secando dos mares do ártico
então vim até aqui oferecer a toalha que restou enxarcada com aquele
bordado de coração,
se puder, por favor, ateie fogo para evitar o mofo de umidades

imponderáveis

- that's my turn to throw these blank dice -

e antes que eu tente abafar os trovões com fogos de artifício:
histeria paupérrima de uma idéia,
ofereço proteção das águas com esta folha do morango da próxima
estação?
semente carregada de urgências,
mas nesses exatos
trezentos e sessenta e seis domingos tentando entrar pelo rombo de cigarro no sofá,
acabei me enrolando e enterrei foi a semântica elegante

- hoje era dia de colheita.

25 de set. de 2008

Desconstrução

Acordou. Embora tivesse as retinas viciadas da sombra corrompida pela fresta da janela, sabia que os objetos estavam exatamente onde esperava: relógio no criado-mudo, cinzeiro no chão ao lado da cama, o casaco pendurado na cadeira. Primeiro impulso: 15:34, coçou a cabeça para tirar resquícios de sonhos esquecidos e sabia que tudo estava acabando. Pegou o casaco e tentou desprender algumas sentenças de seus botões, olhou para algumas anotações no caderno: em branco. Foi ao banheiro e já não sabia se era homem ou mulher. Foi até o espelho para esfregar alguma imagem na cara, com força. Espelho cinza, fosco. Correu até o telefone. Tentou se lembrar de alguém, alguma conversa amiga, alguma piada interna, mas não se lembrou de absolutamente ninguém. Arriscou qualquer número: chamou, chamou, chamou. Por fim, atenderam:

_ Em que posso ajudar?
_ Por favor, estou com frio hoje.
_ Aconselho que vista um casaco _ Já estava com o seu casaco.
_ Não, não é isso. É que sabe, estou com sono.
_ Neste caso, sugiro que descanse um pouco.
_ Não, acabei de acordar. Na verdade é o meu emprego, sabe, está acabando comigo.
_ Então a melhor opção é arrumar outro.
_ Não é isso, é que... Acho que sinto fome.
_ Bem, deveria se alimentar.
_ ... mas meu estômago, desconfio que não tenho um propriamente.
_ Procure um médico!
_ Sim, um médico! Por favor, me transfira para um médico.
_ Bem, lamento, mas agora não existe nenhum médico.
_ Então me transfira para alguma farmácia.
_ Não há farmácias.
_ Me transfira para qualquer pessoa.
_ Perdoe-me, mas neste instante não existe ninguém.
_ Mas e eu e você?
_ Se me permite dizer, sou apenas uma suposta voz.

Ainda tentou responder, mas em lugar de algum argumento, veio o silêncio. Entendeu. Finalmente entendeu que não passaria de um incômodo. Que tudo se encerrava nisso, entre o acordar e esta última ação de pensar sobre o acordar. Um lampêjo abortado. Alguma idéia que não foi levada a sério e nem mesmo sequer tiveram o trabalho de lhe criar alguma trama, algum enredo, algum conflito. Atribuíram-lhe o inacabado, nem mesmo serviu de verso ruim, um mísero haicai que fosse... Não, era a pura falta de disposição alheia! Era alguns suspiros, era palavra empedrada, era o que se olhava despreocupadamente pela fresta da janela e, por falta de paciência, não seria nem o fim, seria o nada depois da próxima vírgula,










21 de set. de 2008

A day in a life.

Ando treinando discursos nietzscheanos debaixo das cobertas enquanto os cães ladram o dia em que não existo. Desta maneira evito o sol, fuligens de automóveis e certos aborrecimentos.
Ainda não descobri nenhuma palavra que se possa entender, mas te perguntaria sobre seus afazeres se soubesse onde me enfiei: naquela calçada pela manhã, quando o orvalho cobria seus medos e escrevia no vidro do teu carro o quanto sinto a sua falta. Mas agora já me recolhi e certamente os discursos pelos bares da augusta me fariam pouco sentido nesta altura. O telefone, antes do corte mensal, só encontraria a casa quieta e a porta fechada. Na pia, filtros de café revalariam alguma tentativa de esperar mais dez minutos antes das cortinas se fecharem. E eu não reconheço uma vida que ninguém mais fala a respeito. E o que resta, por hora, é essa estrutura parada na frente dos cães bravos. E continuo andando pra dentro do meu quarto.

15 de set. de 2008

Fora do ar,

Voltarei assim que algum acontecimento me tirar do torpor.